Batata-quente era uma brincadeira que, na infância, me deixava muito ansiosa. Quanto mais o objeto se aproximava, mais curta minha respiração ficava, as mão suavam e eu só queria me ver livre daquele treco antes de ouvir o famigerado “Queimooooou!”. Os anos passam, os jogos vão ficando mais complexos, os participantes mais difíceis de prever, as regras mais confusas, os objetivos menos claros.
A batata-quente da vida adulta não é diferente: dotados de malícia, embalados pelos truques do inconsciente e munidos de uma habilidade extraordinária em encontrar bodes expiatórios, mostramos toda a destreza que nos faz jogá-la daqui pra lá quantas vezes for necessário. Essa batata-quente é atualmente conhecida como culpa. Quanto mais ela insiste em voltar, mais longe é arremessada. O jogo termina quando a batata queima ou quando a culpa esfria. Uma ginástica digna de monitoramento de gasto calórico.
Mas, não subestimem o valor de uma batata-quente evoluída; às vezes, depois de várias sextas-feiras passadas num divã de cor neutra, remoendo pela milésima vez a grande injustiça que se abateu sobre nossa cabeça, um pequeno deslize e nos vemos com a bendita nas mãos. Diferente das fritas, a batata-quente não é agradável, não vem temperada com páprica e não acompanha nosso hambúrguer favorito. Seja por recato ou por falta de jeito, não existe a possibilidade de arremessar a maldita batata na cara de ninguém. Além de pegar mal, ela provavelmente vai ser lançada na direção de origem mais uma vez.
Então percebemos que não resta nada a fazer senão levar a batata pra casa, em plena sexta-feira. Pegamos a enjeitada nas mãos, olhamos de um lado, de outro, preparamos a carranca e quando estamos prestes a entregar os pontos, uma brecha na lei psicanalítica! Falei mesmo, escrevi mesmo, porque penso mesmo, porque fiz mesmo. Com a voz calma, a analista explica que não se trata de culpa e que não é de ninguém – trata-se de responsabilidade. Fim de jogo, fim de consulta. A gente se levanta, se recompõe, mas o sorriso vem amarelado. Mudou de nome mas a droga da batata continua igualmente chata. E agora? Agora recalca, porque é happy hour. E a batata? Rústica, com alecrim, por favor. E desce uma gelada!

“Falei mesmo, escrevi mesmo, porque penso mesmo, porque fiz mesmo”, hahaha. Amei as camadas de interpretação psicanalítica e de recalque e como elas se manifestam na própria crônica 🥰 mandou muito!!
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Eu todinha, né? 😂
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Perfeita, brilha muito
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Brilhamos juntas! ⭐️💛⭐️💛
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