Colcha de retalhos

Viviane Silva

Não lembro bem quantos anos tinha quando ouvi a palavra “retalhos” pela primeira vez. “Retalhos” eram diferentes dos “paninhos” com que eu brincava na casa da minha avó materna, porque os paninhos eram aqueles que eu podia usar para fazer roupinhas de bonecas. Com ela aprendi a colocar a linha na agulha e a fazer os tracinhos que uniriam os cortes das camisetinhas e sainhas e vestidinhos de uma Barbie desesperada. Já os retalhos eram, na minha interpretação, aqueles quadradinhos de cores diferentes e tamanhos variados que se juntariam aos poucos e dariam origem à uma colcha toda colorida.

Gostava de ver como ela ia montando o quebra-cabeça de quadradinhos, de como ela parecia pegar intuitivamente cada peça, e com a delicadeza de mãos já bastante gastas pelo tempo e pelo trabalho, ela dava sentido e lugar para cada pedaço de tecido. Lembro de me perguntar, e acho que me pergunto até hoje, onde está o cálculo que faz esse movimento têxtil culminar num grande retângulo perfeito. 

Então, outro dia, quando minha avó perguntou o que eu aprendi com ela, as palavras vieram mais rápidas que o pensamento e disse que aprendi a criar. Mas na verdade, acho que não era só isso. Já em casa, pegando a colcha de retalhos que tenho comigo há tantos anos, apesar protestos inconformados da minha mãe, fiquei pensando nesse retalho de conversa enquanto deslizava os dedos pelo labirinto de costuras e cores que me aquece sempre que a temperatura cai ou o coração aperta.

Um sonho, uma noite, um passo, uma surpresa, um caminho, uma descoberta, um cansaço, uma mudança, um sorriso, uma mágoa, um rumo, uma caminhada, um olhar, uma pausa, um arrepio, uma paixão, um início, uma ruptura, um começo, uma novidade, um verso, uma aventura, um machucado, uma dor, um deslize, uma risada, um risco, uma perda, um corte, uma fase, um acidente, uma possibilidade, um susto, uma fotografia, um abraço, uma conversa, um aprendizado, uma troca, um toque, uma atração, um desejo, uma ligação, um desafio, uma criação, um rompimento, uma queda, um levantar, uma manhã, um lenço, uma lágrima, um retorno, uma viagem, um café, uma palavra, um livro, uma música, um beijo, uma brincadeira, um recomeço, uma vida… 

Cada vez que olho pra minha colcha de retalhos, imagino que ela seja isso mesmo: uma porção de formas e cores em princípio não muito harmônicas, numa composição que talvez só ganhe coerência quando vista de longe. É a beleza de um monte de pedacinhos criando um todo único quase sem sentido – e isso, pra mim, faz todo o sentido.

Velhinha & Quentinha & Só minha

7 comentários em “Colcha de retalhos

  1. Avatar de JosianeJosiane

    Que lindo, Vi! Me emocionei ❤️

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    1. Não era exatamente assim? Tenho carinho tão grande pela minha! 💙 Obrigada por me ler e por ter vivido essas coisas comigo! Amo vc!

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  2. Eu amo o parágrafo em que ela te pergunta o que você aprendeu com ela e que as suas respostas também são retalhos. No fim, é tudo isso mesmo, né, V? Momentos, pedaços, quadrados… a vida não é uma linha, é uma colcha ❤️

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    1. Gosto dessa ideia! ❤️ Obrigada pelo olhar atento e carinhoso de sempre!

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  3. Avatar de LeilaLeila

    Que lindo Vivi!Resgatei lembranças e imagens que se perderam no tempo….E a singeleza das colchas de retalhos voltaram a minha lembrança ,trazendo um aconchego e saudades tão grande!Obrigada!

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    1. Leilinda! Obrigada pelo carinho até nas minhas brincadeiras de escrever! ❤️ Feliz que gostou e lembrou de coisas boas!

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  4. Gosto dessa ideia! ❤️ Obrigada pelo olhar atento e carinhoso de sempre!

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