Perder uma pessoa muito próxima é um processo que beira o insuportável. É saber que se perdeu um pedaço de si. É descobrir que se perdeu um pedaço da realidade. Perdeu-se uma imagem, um som, um toque, uma sensação. Pra sempre. E nesse pra sempre, por mais curto que (se de)seja, o luto é uma dor que se constitui em etapas. E uma das etapas mais cruéis é o medo de se perder também a memória. A angústia repentina de se esquecer por alguns instantes o som do seu nome ecoando num tom tão único quanto distante. A dor de não se ter mais certeza das nuances daquele castanho tão comum mas tão singular daqueles olhos. O medo de se perder as imagens e o terror de se dar conta de que aquela imagem teria mudado porque sete faz setenta e não se faz a menor ideia da imagem atualizada. O toque tão leve e tão inconfundível que não vai mais acontecer. A sensação então é de que quanto mais a vida se prolonga, mas se essas memórias se afastam. Não existe consolo diante do enfraquecimento de uma memória, ainda que o espelho faça suas aproximações.
