Viviane Silva
Perdi alguma coisa que me era essencial, e que já não me é mais. Não me é necessária, assim como se eu tivesse perdido uma terceira perna que até então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé estável. Essa terceira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nunca fui. Voltei a ter o que nunca tive: apenas as duas pernas. Sei que somente com duas pernas é que posso caminhar. Mas a ausência inútil da terceira me faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma coisa encontrável por mim mesma, e sem sequer precisar me procurar.
[…] É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa o modo de me achar, mesmo que achar-me seja de novo a mentira de que vivo.
[…]
[…] Mas tenho medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo — quero sempre ter a garantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei me entregar à desorientação como é que se explica que o meu maior medo seja exatamente em relação: a ser?
[…]
[…] Foi como adulto então que eu tive medo e criei a terceira perna? Mas como adulto teria coragem infantil de me perder? […] As duas pernas que andam, sem mais a terceira que prende. E eu quero ser presa. Não sei o que fazer da aterradora liberdade que pode me destruir. Mas enquanto eu estava presa, estava contente? ou havia, e havia, aquela coisa sonsa e inquieta em minha feliz rotina de prisioneira?
A paixão segundo G. H., Clarice Lispector [p.9-12]
Hoje na hora do almoço, fui revisar o material que tinha preparado pra uma aula do cursinho popular onde eu trabalho com leituras mediadas. Era um livro da Clarice que eu tinha deixado pro final por vários motivos. O livro tem toda uma toada existencial que é pesada para vestibulandos, então decidi entrar por uma porta que o Ítalo Calvino me abriu e que eu sempre levo pra sala de aula ou para mediações de leitura: um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem pra dizer.
Talvez seja isso ou talvez seja o calor de uma semana tão decisiva em que as nossas preocupações estão tão intensificadas, mas, às vésperas de um segundo turno bizarro, o que a leitura me disse hoje foi justamente sobre a terceira perna que metade do país não quer perder. E a extrema direita oferece justamente essa terceira perna inútil pelo preço da nossa liberdade, dos nossos direitos, da nossa existência.
A extrema direita, como já disse Rita Von Hunty, oferece certezas: – deus é o deus cristão, família é papai-mamãe-filhinhos; homem faz assim, mulher faz assado (uso essa expressão datada justamente porque é mais ou menos o que eles esperam das mulheres – que façam seus assados dentro de casa e se resignem à categoria de segundo sexo, como bem disse Simone de Beauvoir).
Não há espaço para nuances; o meio-termo não existe; o diferente precisa ser ridicularizado, patologizado, calado, destruído, eliminado. E tudo isso vai sendo organizado dentro de um projeto doentio, mas nada original, que buscou inspiração nos movimentos fascistas italianos, salazaristas portugueses, nazistas alemães. Sim, todo mundo se lembra dos copinhos de leite numa live presidencial em 2020 e da cópia literal de trechos de um discurso do Goebbels proferido por Alvim ao som de Wagner no mesmo ano. Mas não. Nós é que somos radicais. Somos um monte de gente louca, exagerada. “Fascismo” é um termo muito forte.
Enfim, divaguei demais. O que me levou pra essa sessão nada nostálgica foi relacionar a terceira perna que a extrema direita oferece a uma população cansada e que tem muito medo da liberdade, das liberdades.
De fato, a liberdade, em oposição a um lugar em que tudo está definido, decidido, delimitado, é uma noção assustadora. A liberdade exige que a gente faça uma escolha, que, por sua vez, vai exigir que a gente se implique nessa escolha, que assuma a responsabilidade por ela. Ser livre é difícil porque pode ser desconfortável se apropriar de alguns desejos. E se a liberdade do meu vizinho nos incomoda, talvez seja porque ela nos toca de alguma forma. Nos coloca de frente com algo que, muito possivelmente, não temos coragem de dizer (nem pra nós mesmos) que queremos.
A terceira perna dá estabilidade, mas tira o movimento. Tira a liberdade. Perder essa perna vai trazer incertezas, mas, quando se começa a caminhar, ainda que sob uma sensação aterradora diante do novo, enche nossos pulmões de ar, dá propósito à circulação do sangue que corre em nossas veias e traz propósito à nossa existência. Ousar “estregar-se à desorientação” é uma forma de libertação que deságua numa vida mais plena. E ninguém tem o direito de cercear a liberdade e a existência de todo um país. Nem mesmo tentando se vender como algo que, de novo, não tem nada.
