Viviane Silva
Como todo mundo, eu tenho uma porção de pequenos prazeres. Adoro ficar deitada no chão da varanda nos finais de semana preguiçosos de verão, vendo as plantas de que aprendi a cuidar. Adoro os móveis de cores claras no ambiente perfumado que limpei no dia anterior. Adoro a música que chega suave e me faz querer cantar. Adoro o lustre rosé que consegui encontrar depois de procurar tanto. Adoro meu café da manhã colorido na bandeja, junto dos meus livros espalhados pelo chão.
Há anos venho brincando de criar tradições para celebrar as manhãs em que posso me dar ao luxo de ignorar o despertador. Meu café de todos os dias fica um pouco mais instagramável porque o acomodo numa bandeja de bambu e o levo pra sacada. Gosto do colorido da panqueca com geleia e frutas vermelhas, dos ovos mexidos temperados com Herbes de Provence e do aroma do café moído na hora. O único filtro que preciso é o Melitta 100, usado para coar esse café, diretamente na caneca de dizeres malcriados. Tudo isso faz parte de um cenário de aconchego que não vira script de filmes de Hollywood.
Essa ideia me ocorreu quando assistia uma comédia romântica indicada pela analista. A coisa me intrigou de tal forma, que esqueci o que deveria ter observado. Fiquei pensando na representação que o cinema empurra pra gente desde sempre. A cena marcava o contraste entre as vidas de duas irmãs. No plano aberto, duas fachadas: à direita, a casa iluminada de uma delas, com filhos e marido, todos muito felizes e sorridentes; à esquerda, uma janela de madeira envelhecida, com cortinas abertas para a penumbra e o total silêncio. De fundo, começa uma música triste, e a irmã solteira, depois de uma pausa para suspiros melancólicos diante de tudo que lhe falta, segue resignada para sua realidade. Que inversão dos meus valores…
Esse conceito circula tão livremente que sinto uma dificuldade enorme em lembrar de imagens cinematográficas com boa luz e clima leve além daquelas mostradas no apartamento da protagonista de Sex & the City – sim, Carrie Bradshaw queria viver o amor, mas não a todo custo. As tomadas em que ela estava sozinha eram permeadas por diversos questionamentos, não por amargura. O quarteto todo estava à procura de amor e de vários outros desejos que deixam a vida tão interessante.
Virgínia Woolf deu a dica há muito tempo: um teto todo seu, longe de triste, é garantia de privacidade, de um encontro a sós com os seus projetos, com os seus segredos inconfessáveis, com a liberdade. O discurso social vende a solidão porque não descobriu o valor da solitude. Esse espaço todo meu sempre foi o sonho de uma vida, e hoje assumo isso abertamente. Mas só o posto aos sábados, afinal, ninguém precisa de uma cena triste dessas no seu feed numa terça-feira chuvosa, depois de tropeçar no parceiro, reclamar do ronco das crianças e distrair o cachorro com o celular. Ou algo parecido.
