Que vazio é esse?

Viviane Silva

Meu nome é Viviane, sou uma quarentener solteira e uso aplicativos de relacionamentos quando estou entediada. Quem nunca apelou pro plano C no fim da festa ou mandou mensagem pro ex quando achou o número dele no fundo de um copo de mojito que deixe o primeiro emoji revirando os olhos. A gente pode até chamar de pesquisa antropológica, de curiosidade, mas no fundo, quem está realmente dentro de casa no meio desse pandemônio sabe que se trata de um caso típico de carentena. Queremos apenas um pouco de flerte massageando nosso pequeno ego depois de dançar com a Dua Lipa tomando uma taça de vinho verde no meio da sala. Não sei o que acontece entre música pop e meu bom senso, mas quando um chega, o outro sai de fininho pela janela mais próxima.

Lembrei de um artigo que explicava os prós e contras de vários desses aplicativos e escolhi aquele que prometia filtrar bolsominions – OkCupid, a quem interessar possa, e obviamente sem julgamentos. Instalei e guardei meu novo joguinho numa pasta chamada “Compras”, bem ao lado do demônio da Amazon. Começar é objetificantemente divertido; sim, porque se fosse pra pensar (e sofrer), eu ouviria o noticiário falando sobre esse país sucateado pelo negacionismo. Então foi fácil escolher: domingo à noite é a hora do rush no universo do flerte digital, segundo a notificação rosa-choque-fulminante e nada discreta que aparece na tela do celular – não posso esquecer de desativar isso.

Entre jogar as pessoas pra direita e pra esquerda, recebo o que eles chamam de intro. Uma espécie de aposta que uma pessoa que você talvez não tenha visto ou nem tenha gostado faz se apresentando. Um usuário de 20 e poucos anos. Nossa, não! Onde muda isso? A guia de configurações é a padroeira dos desatentos e descuidados, e sob seu manto de proteção, ajusto as preferências para 40 – 50 anos. Mas essa Guia não me parece das mais comprometidas, e vira e mexe vejo umas ovelhas desgarradas perdidas no meu radar. A jornada segue chatíssima e infrutífera. Matches que não viram conversas, conversas que não parecem cantadas e cantadas que só acendem meu sarcasmo. Se me machuquei quando caí do céu? Oh, honey, no! I live downstairs! 

Desisto. Até o domingo seguinte, porque a vida é feita de ciclos e o tédio não é muito diferente. A intro dessa lua veio da Ásia Meridional, me deixando com vontade de qualquer coisa com um pouco de curry. Outra vez a idade estava errada, mas achei que podia ser interessante conversar com alguém morando em Calcutá – a cidade da Madre Teresa, o que poderia dar errado?

O papo começa interessante, e eu consigo até rir apesar da inveja que consome minhas entranhas quando fico sabendo que a Índia acelerou o processo de aquisição de vacinas enquanto a coisa aqui segue complicada pra quem não é miliciano. Resolvo insistir nesse intercâmbio promissor – imagina se ele me ensina a preparar uma Samosa ou me convida pra uma dose de Covaxin? Seguimos conversando mais uns minutos e eis que o boy, que tinha tudo pra se tornar a  “Masala do meu armário de temperos”, vem com aquele papinho de quem está a fim mesmo é de sacanagem à brasileira. Como é que Kali me deixa passar por um negócio desses? Socorrida por Shiva, desfaço o match e volto pros braços do meu aplicativo favorito. E ele me mostra que é no Paraíso que vou encontrar o que procuro: Tandoor, 5 estrelas, trabalhando com sistema de entregas e retiradas. Namasté!

Foto de perfil #1, sempre! #elenao

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