Viviane Silva
Escrever é algo que me permite pegar a realidade com as mãos em concha, amassar e modelar os fatos, e depois olhar pra eles pelo ângulo que mais agrada. Dá até para falar de um livro da mesma forma que falaria de um crush. Posso contar que acordo devagar e olho pra ele admirando cada linha enquanto penso que, embora já conheça um pouco do conteúdo, ainda tenho um universo inteiro para descobrir.
Gosto de tudo nessa cena e me arrisco a brincar com as palavras. Conto sobre o contraste entre a firmeza do lado de fora e a suavidade de tudo que ele guarda do lado de dentro. Conto que gosto do cheiro. Conto ainda que gosto do cheiro que muda. E vou revelando mais um monte de segredos íntimos, sobre como gosto de observar letras e imagens, sentindo na ponta dos meus dedos a irregularidade da textura e o relevo que a tinta deixa. Um livro ou um cara todo tatuado que usa perfume?
Entre batidas no teclado e flashes de memória, vou admitir que gosto de aprender com ele, de rir com ele, de tomar um vinho com ele e de imaginar que ele entrega seus segredos apenas a mim. Vou me soltando mais e acrescento que gosto de deixar minhas marcas nele. E que gosto de dormir com ele perto e saber que ele está ali. Os amantes de literatura vão preferir que eu esteja me referindo a um romance tórrido e não a grifos selvagens nas margens de um livro que pode ter suas páginas amassadas caso eu me mexa demais quando durmo.
Vou dizer que nem sempre consigo um clima de leveza e romance com todos eles, e que já precisei parar, que já precisei fugir, pedir um tempo. Profissionais da psicologia em estado de alerta serão tranquilizados lembrando de leitores que sofrem junto dos personagens mas que insistem em viver outras vidas, porque é preciso ler com coragem. Talvez cause surpresa quando revelar que vários deles eu deixei sem grandes explicações. E que não, eles não se incomodam nunca. Quem se incomoda somos nós porque no fundo sabemos que ele tocou algo que não estávamos prontas pra encarar. Ou que não teve jeito com as palavras e a coisa caiu mal. E voltamos ao empate técnico.
Finalizo essa confusão acrescentando que quando tenho mais sorte ou menos disposição para sentimentos intensos, opto por algo mais leve. E que quando termina – porque tudo que começa precisa terminar – fica apenas a nostalgia. Acho importante mencionar também que entre um e outro, geralmente dou um tempo, mas nem sempre. E vou explicar que às vezes a gente se deixa levar e emenda uma história na outra. E tudo bem. Impossível seguir regras o tempo todo. Com os livros também.

Adoro o flow dessa crônica e seu exercício de comparações é muito fino. Mandou muito ❤️
CurtirCurtido por 1 pessoa