Viviane Silva
Se na ficção tudo vai bem, com um Lúcifer divertidíssimo simplificando a questão, na vida real temos de lidar com os fatos expostos pelo filósofo italiano Giorgio Agamben, que foi na direção oposta quando falou sobre desejo. Disse tratar-se de algo simples, humano, inconfessável, mas acrescentou que, porque o desejo é imagem, ele se perde na tradução tão rudimentar da fala, e que o mantemos numa cripta. Imagino que a decodificação fique ainda mais complicada na geração dos microblogs e das possibilidades infinitas.
Há anos me debato, me irrito, me puno, me enlouqueço e – por que não assumir? – me machuco por conta de uma incrível inabilidade de decifrar o meu próprio desejo. Em minha defesa, esclareço que a minha cripta tem um pouco de tudo, principalmente no setor Escolhas: café ou vinho? Ficar, ir? Ler Plath, Trasi, Montero, Selasi? Compromissos ou horários livres? Vista do décimo terceiro andar ou tela e gatos? Maus hábitos passados ou um vício novinho em folha? Um trago, um gole, um pouco de alienação ou sobriedade e saber?
Nada que sólidos platônicos não consigam ajudar a resolver, certo? Mais ou menos. Porque, ainda que você se lembre que não existem apenas dados com seis faces, para a alegria dos jogadores de RPG e dos professores de geometria, é preciso considerar a natureza do famigerado desejo.
Também é preciso admitir que, além do desejozinho nosso de cada dia, existe ainda o desejo que você, lá no fundo, sabe que não tem, mas acha que deveria ter; e aquele que talvez tenha, porque afinal de contas, todo mundo tem; aquele que tem, mas que provavelmente não deveria ter; aquele que tem, mas que bem que poderia ser diferente; ou então aquele que não tem, mas que traria toda uma aura interessantíssima… E aí, como é que se joga um dado em cima disso?
Nesse momento, você joga tudo para o alto. Não apenas os dados. Também os desejos, o lápis, os papéis. Melhor pedir uma pizza. Meia portuguesa, meia calabresa. Metade de você achando que vai esquecer o dilema, metade esperando uma solução mágica. Mas diferentemente daquele tempo em que as cartinhas da apresentadora de um programa de tv infantil caiam como uma chuva macia deixando na mão dela um único envelope, tudo que você consegue é derrubar o vinho, manchar os livros, borrar o grafite na página e provocar um curto circuito no computador, que não tinha nada a ver com a história.
Mas vamos ao que interessa agora. A pizza. Qual era mesmo? Ah, sim, a de sempre: quatro funghi! O que acontece no piloto automático, fica no piloto automático. Deseja repetir o último pedido? Et voilá!, ele de novo.
Então você se dá conta – e se for essa a resposta? E se for um sinal? Mas aí se lembra que não acredita em sinais e que até isso Agamben já havia antecipado: a tarefa vai ficar por fazer, postergada. Até o final do prazo. E mais um pouco, talvez. Se não houver multa. Se não chover. Se não acontecer mais nada. Ou se acontecer alguma coisa.

Muito bom, V!
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Muito bom, Vi!
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