Viviane Silva
Há algum tempo já sei que viajar é o grande amor da minha vida. A sensação de me perder em um lugar desconhecido é altamente viciante. Apesar do que as colunas de horóscopos dizem por aí, sou organizada apenas no conceito e raramente vou ter tudo esquematizado. As malas eu faço pouco antes de sair, esqueço um monte de coisas, não agendo traslados e só vou lembrar disso quando chego no destino. T-O-D-A-V-E-Z. E nada disso me incomoda, porque viajando eu sou uma pessoa melhor. Iluminada, quase.
Talvez dirigir pelas serras de curvas impiedosas sob uma chuva fina e constante, ter o voo da conexão cancelado ou perder o cartão do metrô devessem me assustar e ensinar lições, mas no fim, só acabo mais viciada mesmo. Algo nessa dinâmica me faz querer mais e mais e mais. Seguindo as coisas que meus olhos descobrem a cada esquina, encontro pontos de vista únicos, cafés singelos, grafites interessantes, livrarias charmosas.
Obviamente nem tudo é uma aventura cor-de-rosa. Já me assustei com a porta do quarto aberta acidentalmente. Já ouvi barulhos estranhos na roda do carro há quatrocentos quilômetros de casa. Já fui abordada por estranhos. Mas também aprendi que mesa pra um é mais rápido de conseguir, que sempre falta uma pessoa para completar o próximo grupo que vai subir a torre e que, com um pouco de sorte e simpatia, bistrôs oferecem sobremesas deliciosas, de graça.
Estar comigo mesma não é um sofrimento, é uma aventura completamente diferente que dá espaço para todo tipo de atividade mundana, como mudar o cabelo ou usar a lavanderia local e observar o cotidiano das pessoas enquanto meu jeans favorito roda na máquina. Amo me perder e resolver o desafio de me encontrar de novo. Amo tomar o rumo contrário e precisar pensar rápido porque a vontade de fazer xixi está no limite. Amo escolher as coisas que vou comer e beber e me arrepender e rir ou me deliciar e repetir.
Viajar com alguém é uma delícia, eu sei. Compartilhar o que se vê. E essa é a única coisa de que eu sinto falta. Sempre que vejo um lugar desses que deixam a gente com a sensação de grão de areia no universo, penso num texto dO Livro dos Abraços, do Galeano, com Diego pedindo ao pai que o ajude a olhar e a contemplar a visão do mar. Mas combinar itinerários é uma arte refinada e eu sou apenas uma amadora. Amadora mesmo, no sentido de quem faz algo porque ama e não porque sabe fazer bem. Sou amadora de aventuras, de riscos, de pouca responsabilidade, de descobertas, de liberdade.

Que delícia de texto, V! E muito necessário. Por mais mulheres viajando sozinhas ❤️
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Sozinhas e livres e felizes e seguras! ❤️
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