Quarentei!

Viviane Silva

Não sou uma grande fã de números, mas os aceito quando não estão em operações matemáticas e quando são pares. Também acho que eles têm uma aura diferente quando se acumulam em dezenas. Então, perto dos trinta, comecei a pensar melhor nas comemorações por cada vez que concluísse dez voltas em torno do sol. Como não me lembro da primeira nem da segunda, a terceira precisaria ser memorável. Eu ainda estava casada, colhendo os primeiros efeitos dos treinos de musculação e de uma dieta chatíssima, e comemorei com três doses de tequila e um monte de brigadeiros sem a inconveniência de uma ressaca no dia seguinte.

A quarta volta em torno do sol foi bem diferente. Não teve festa, não teve brinde com quatro doses de alguma bebida interessante nem sequências de pratos e sobremesas. Teve o café da manhã especial de todos os dias. Teve um dia de trabalho mais chato que de costume porque nem todo professor nasceu pro ensino remoto. Teve selfie com camiseta do Tarantino e caneca malcriada: “Namasté, caralho!”

A aura de sabedoria que eu esperava que fosse chegar de presente na minha porta na manhã que “virasse a página trinta e nove da minha vida” não chegou. Mas e a maturidade? E a calma? E as respostas sábias? Procurei até debaixo do capacho F.R.I.E.N.D.S na entrada do apartamento e nada. Olhei no espelho, e além das linhas de expressão, nenhum sinal de que estivesse mais madura. Então eu vou ter que assinalar outra caixinha de idade nos formulários e não vou ganhar nadinha em troca?

Entre um parabéns e outro, a sensação de ter sido enganada seguia. Fiquei pensando em como vinte anos atrás, um namorado de trinta me parecia quase velho, com seus cabelos grisalhos e lembrei de outras coisas que aconteceram desde então. Aumento de responsabilidades, de decisões, mudanças de carreira, de apartamento, de hábitos. Casamento, divórcio, independência. Luta, luto, questionamentos, dor, reconstrução, riscos, perdas, encontros, desencontros, reencontros. Sapiência? Nem sinal.

Todos os dias algum coach aparece falando sobre transformações, ciclos, crescimento, pontos de virada. Além das mudanças trazidas pelos movimentos dos planetas, também fala-se muito daquelas que devem ser cultivadas entre livros, filmes, amizades, relacionamentos, viagens, grupos de discussão, divãs de psicanalistas e mais um monte de coisas. A lista parece não ter fim. Tá, mas e aí? E a iluminação? Tudo se encaixa quando penso no que diz a sabedoria popular – a vida começa aos quarenta. Então, se essa história tiver algum fundamento, isso só pode significar uma coisa: é aos cinquenta que a mágica acontece! Certo?

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5 comentários em “Quarentei!

  1. Delicioso, V! Amei as enumerações 😍

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    1. Enumerar é preciso né? ❤️

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  2. Avatar de MilenaMilena

    “a vida começa aos quarenta” cadê a iluminação? É só viver! Lembra oq falei outro dia,qdo vc tava na praia? É isso! Pule,grite, dê risada,chore,se alguém olhar? Foda -se!!!
    “A vida começa aos quarenta” acredito eu que é isso, não se importe, não espere, só ViVa!!!

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  3. Bem… Faço 40 dia 9 de janeiro (assim espero). Expectativa zero, hahahahahaha. Pelo menos estou começando em uma nova carreira. Decidi fazer Pedagogia e me formei aos 38 anos. E esse ano começo em meu primeiro emprego como professora. Vamos ver no que vai dar. Adorei a caneca! Beijos!

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