Pelo meio-fio

Viviane Silva

A vida acontece rápido e acontece quando não estamos olhando. Às vezes acontece quando estamos olhando pra outro lado. Acontece quando estamos nos divertindo distraidamente. Acontece quando caminhamos na praia. Dou um passo na direção da onda que vem rápida de encontro a mim e depois… bem, depois eu fujo, claro. Era uma onda enorme!

Volto pra areia, fingindo naturalidade. Abro uma cerveja, tiro uma foto. Mas fico atenta. Abro um livro – Spinning. Adoro graphic novels e a singeleza das narrativas visuais. As páginas de ilustrações azuis e histórias difíceis vestidas de roupas leves me conduzem ao meu próprio spin. Quando me dou conta, a maré subiu um pouco e quase alcança minha canga. Mas esse era meu lugar ao sol, não era? Por que essas ondas vêm com tanta força e tão depressa? 

Não consigo ler, não consigo escrever, não consigo desenhar. Tudo bem, desenhar eu nunca soube mesmo. Puxo a canga mais pra cima. Agora ainda mais atenta, volto ao meu livro. Um gole de cerveja, um gole de água, uma página, uma inquietação. Em segundos, uma onda vem forte e imprevisível molha metade da canga, coloca à prova a sacola de algodão cru e me assusta. 

A brisa fria me circula e me sonda. Olho pros lados, ninguém. Ninguém. Mas não estou sozinha e estou sob as investidas desse mar agitado, sedento por algo que não entendo direito o que é. Esse mar inquieto que parece tentar me arrastar com pressa pras suas profundezas escuras. Logo eu, que não sei correr. Logo eu, que não sei nadar. Logo eu, que tenho medo de profundezas. Logo eu, que tenho medo de escuro. 

Hora de mudar, andar por aí, ver o que tem lá pros lados do farol. Levanto, amarro a canga na sacola e sigo pra esquerda. Entre sol e vento, areia e água, quente e frio. Dou alguns passos, sinto um corte no pé. O tecido molhado se cola ao meu corpo. Caminho no limite, entre o bom senso e a loucura. Pé ante pé num meio fio imaginário que o mar insiste em cruzar só pra me descompor. Abrupto, molha meu shorts, desafia meu equilíbrio.

Só mais um pouco, mais alguns metros. Eu consigo, acho que consigo. Mas, por que não pela calçada? A orla continua sendo a orla de lá. É que pela calçada… não sei, o chão parece concreto demais, real demais, firme demais.

Pé ante pé num meio fio imaginário [Ubatuba, julho de 2021]

4 comentários em “Pelo meio-fio

  1. Uau! Amei a quantidade de insólito no final, sintetiza demais o espaço e o estado de espírito da narradora. Belíssima foto também. Arrasou demais, Viviane, we bow 🙇‍♀️

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    1. Biased! 😛 Obrigada por me ler com tanta abertura e disposição! ❤️

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  2. Avatar de RaquelRaquel

    Impressionada como o mar leva. Concretiza, derruba, arrasta tudo. E continua. Vivi e o mar ❤️
    (Amei demais)

    Curtido por 1 pessoa

    1. Maravilhosa! Obrigada por me ler com olhos atentos e coração aberto! ❤️

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