Pequeno manifesto tabagista

Viviane Silva

Esquece tudo que você ouviu falar sobre o cigarro. Tudo, das doenças aos contratempos sexuais. A vida é isso aí mesmo e às vezes as coisas vão dar errado. 

Agora pensa na delicadeza da mão de uma mulher dobrada sobre o punho, sustentando uma pequena ponte nas pontas dos dedos indicador e médio. O cilindro de papel produz uma trilha acinzentada que se prolonga no ar. De um lado, filtro, do outro, fogo. Num gesto lento e delicado, o cigarro toca os lábios pintados de vermelho. O sujeito que ofereceu o isqueiro não tem a menor chance. O anúncio com a foto de orgãos chamuscados na embalagem também não.

Mais adiante, se a esquina da rua pouco iluminada tiver a sorte de ter um bar com cerveja gelada e uma boa seleção de frituras, as chances que a sarjeta tem de se transformar em cinzeiro são grandes. O rolinho de palha preso com elástico passeia de mão em mão e entre cada trago, risos inebriados se preparam para as fotos da câmera frontal do celular. Um, dois, oito cliques. Mais uma. De novo. O grupo alterna poses e muda ângulos, assume riscos. Investimento coletivo, retornos individuais. Em sua forma mais pura, o tabaco estreita os laços, encurta a respiração. Como dizem por aí, faz parte.

Em outro lugar da cidade, numa varanda qualquer, entre música indie e algumas taças de vinho, a seda do cigarro transita das mãos dele às mãos dela; a fumaça branca surge na boca dela e segue na direção dele. Enquanto um joga a cabeça para trás, o outro observa seus lábios se desprendendo do cigarro e o braço que traça uma parábola lhe devolvendo a vez. Nesse espelhamento de gestos sincronizados e entorpecidos, os pensamentos se perdem. Se perdem também os argumentos e o excesso de racionalidade. Fica o encantamento do THC. O que é natural não faz mal, naturalmente.

O status de poder e elegância que o cigarro confere ao fumante no século XX fez e faz muito dinheiro em Hollywood. As cenas mais sedutoras acontecem com quem sai misteriosamente de um ambiente lotado, encosta numa parede fria do lado de fora e acende um cigarro. No escuro, a ponta luminosa marca o xis no mapa do tesouro. Com o mínimo de atuação, o magnetismo ganha o primeiro plano e a transgressão regulamentada rouba a cena. O interlocutor que aparece desiste da conversa e vai embora ou se aproxima e pede um trago? 

O ministério da saúde adverte, algumas pessoas reclamam, mães aflitas travam verdadeiras guerras. Mas nada disso adianta. Ninguém mais consegue manter os pulmões intactos por muito tempo. A casualidade da fumaça exalada dessa coreografia de sedução não faz promessas futuras, ela compensa agora. Tem um cigarro?

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