É verdade mesmo?

Viviane Silva

Desde criança, aprendemos que não devemos mentir. Nunca. A verdade sempre é o melhor caminho. Mas… é o melhor caminho pra onde? E os adultos que apresentam essa regra jurando que ela figura entre a mais sublime das leis, que ela é praticamente passe pro céu, que nada de ruim vai acontecer se você contar a verdade, nunca mentem esses adultos? Reforçam que não e o jogo segue. 

Assim, os dias vão acontecendo, as verdades vão saindo, e parece ser mais ou menos como disseram. Até o dia que você conta para aquela prima faladeira que vocês duas tem a voz (estridente) parecida, foi sua mãe quem disse. Mais tarde, em casa você descobre, junto do castigo, que a regra tem um negócio chamado exceção: existe uma tal de mentirinha inofensiva, que contamos só pra não magoar as pessoas. A partir daqui, tudo fica confuso e essa explicação vai complicar toda uma vida. 

Não estou falando das mentiras inescrupulosas e manipuladoras que o gabinete do ódio dissemina para tentar se manter no poder prometendo aquilo que Antonio Prata chamou na crônica dessa semana de promessa ao retorno a um passado mais simples. Estou falando de outro tipo de mentira. No departamento de mentiras não enganosas, quais delas não são contadas no intuito de poupar alguém de uma verdade áspera? 

Claro que entre as mentiras nossas de cada dia, existem aquelas que além de poupar alguém dessas verdades ásperas, têm o poder de evitar cortes de relações, demissões por justa causa, litígios nos divórcios e todo tipo de guerra. Os mais inocentes entre nós aprendem isso quebrando a cara, cortando relações, perdendo trabalho e caindo de paraquedas no front – enquanto os mais adeptos da malemolência aprendem vendo os circos alheios em chamas, a uma distância razoavelmente segura.

Mas, e a mentira raiz, pode? A mentira que caminha sobre a linha tênue entre a proteção, a educação e a enrolação. A mentira desconfortável. A mentira que exige sangue frio e paciência. A mentira que você precisa escolher se vai parir. A mentira que promete alívio imediato de profundas irritações mas que vai acabar com qualquer tipo de diplomacia, queimar pontes e partir corações. Essa pode ou não pode? Se pode, pode quando? 

Em uma de suas máximas1 Nietzsche rebate uma frase atribuída a um botânico holandês que diz que toda verdade é simples. Ele simplesmente questiona se isso não seria uma dupla mentira. Em outra máxima2, o filósofo coloca contra a parede a honra que impulsiona a verdade e o ódio que condena a mentira falando na coragem que mentir requer. Ou seja, não existe saída fácil, e a única saída possível é a saída de emergência – que raramente encontramos de bate-pronto quando estamos diante de perguntas difíceis. Seja porque, de tão óbvias, não deveriam precisar ser respondidas, seja porque a resposta é diferente do que se espera do outro lado.

I promise.

1 “Toda verdade é simples.” – Não é isso uma dupla mentira?

2 Há um ódio à mentira e à dissimulação que vem de uma sensível noção de honra; há um ódio igual que vem da covardia, sendo a mentira proibida por um mandamento divino. Covarde demais para mentir…

Crepúsculo dos Ídolos – Frederick Nietzche

2 comentários em “É verdade mesmo?

  1. Mentira raiz 😂 se citar Nietzsche, pode

    Curtido por 1 pessoa

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