Viviane Silva
Quando criança, ouvi essa expressão e me pareceu tão esdrúxula que a guardei com atenção. Me perguntava por que é que alguém precisaria escolher entre essas duas coisas. Lógico que a melhor escolha era a bicicleta! Daria pra ir comprar doces na Dona Maria na rua de baixo muito mais rapidamente. Mas depois pensava… seria porque cair da bicicleta na rua de terra e ralar o joelho dói pra caramba? Tinha todo o ritual do banho, sabão, merthiolate – credo. Concluí que deveria ser por isso que as pessoas se casavam, coitadas.
Mais tarde, na adolescência, com as músicas, as rodinhas de conversas, os segredos, a tv e acima de tudo, com o ódio mortal das aulas de educação física, a resposta mudou – nada de bicicleta. A gente vai acabar casando. Mas só na vida adulta, claro. E depois de arrumar namorado. Até que o primeiro namorado apareceu e o relacionamento se prolongou por anos. E eu só pensava: “Mas já? Como é que isso foi acontecer tão cedo? Então agora acabou? Não posso mudar e escolher a bicicleta?”
Pra minha sorte – e claro, do namorado – não nos casamos. O que acontece na adolescência, fica na adolescência. E por mais alguns anos, não precisei pensar nem em casamento, nem em bicicletas. Mas eventualmente me casei. E esse foi, de longe, meu relacionamento mais saudável. Deu muito certo, e se vivemos felizes para sempre, é provavelmente porque já não vivemos juntos. A parte engraçada é que, um pouco antes do divórcio, ele comprou uma bicicleta de verdade. Eu não aderi mas apoiei. Bicicletas não eram meu rolê. Descobri mais tarde (spoiler alert!) que casamentos também não.
Nos anos seguintes, entre a vida de solteira e alguns relacionamentos, arrisquei umas voltas de bicicleta. Fiquei aterrorizada com a falta de respeito dos motoristas da cidade e doei a coitada. Deixei a prática controversa do ciclismo para momentos esporádicos no parque com aquelas bicicletas podronas de aluguel mesmo. E tudo ficou bem. Bem esquecido. Entre um relacionamento tóxico e outro, entre uma sessão de análise e outra, a pergunta inevitavelmente volta: casar ou comprar uma bicicleta?
O distanciamento social imposto pela pandemia ao mesmo tempo em que fecha (quase) todo mundo em casa, nos obriga a confrontar um monte de questões, a repensar os espaços, o uso do tempo, as relações e a descobrir o que é que a gente quer de verdade. Leva algumas pessoas, traz outras, desfaz laços, cria novas conexões, afasta aqui e aproxima ali.
Muita coisa muda em vinte meses. E adivinhem. Entre um aluno ciclista e uma amiga nova super adepta ao pedal, uma antiga chama se reacendeu dentro de mim. Conheci alguém que me ajudou a descer do muro e decidi me comprometer. Graças a ela, finalmente fui capaz de responder a pergunta lá do começo. Obrigada, minha Nossa Senhora da Bicicletinha, que abriu meus caminhos com planejamento em seu estado mais puro: comprei uma bicicleta e ganhei uma sessão de bike fit para ajustá-la especialmente ao meu corpo. Tem união mais estável que essa?

Eu já casei e com quase 40 não sei andar de biblicleta. Se mimha filha me fizesse essa pergunta eu com certeza eu responderia: Compra a bicicleta pelo amor de Deus!!!
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Hahahahahahahahahaha dizem que se planejar direitinho dá pra fazer os dois! Obrigada por me ler! Beijo nas duas!!
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Espero que sim,rsrsrs.Eu que te agradeço. Seus textos me ajudaram a quarentar com mais leveza… Beijo! ♥
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