Dia das mães estratégico

Viviane Silva

Minha mãe é uma mulher que surpreende tanto pela resiliência quanto pela capacidade de mudar e evoluir. Se a vida aplica uma invertida, ela aprende a plantar bananeira – simplesmente inacreditável. Por isso, tinha escolhido o dia das mães para contar que finalmente a relação com a minha está cada vez melhor. Teria sido uma crônica linda, engraçada, fofa. Mas infelizmente não vai rolar. Poderia ter sido a gente, mãe, mas você não colaborou.

Há alguns dias, ela me deu um beliscão metafórico sobre uma relação que nada tem a ver com a nossa – contato com primo bolsominion. Inclinou a cabeça pra direita, apontando a mãe do meninão, fez beicinho dizendo que ela fica chateada porque gostaria que estivéssemos mais próximos. Já eu inclinei a cabeça pra esquerda e disse que gostaria de estar tomando mojitos cubanos em Varadero.

Por outro lado, talvez eu devesse calçar umas botas, arranjar um chapéu e tentar virar esse voto. Mas estou drenada. Em tempos de cobrança por alta produtividade, compromissos incessantes e um crescente sentimento de não dar conta de nada, nosso tempo livre fica cada vez mais escasso e nossa vontade de interagir cada vez mais mirrada. Por isso, nem eu, nem ele temos a menor intenção de dividir uma mesa, independentemente de quanta cerveja esteja em jogo.

Se nos dias úteis nosso tempo é entregue de bandeja ao capitalismo, nos finais de semana a resistência acontece quando ignoramos as demandas e vivemos nosso anarquismo pessoal milimetricamente organizado. Como a performance do descanso diz que tem que dar tempo de tudo, a gente se desdobra entre o brunch com as amigas, drinks com o date, almoço com a mãe, e se a deusa ajudar, um tempo sozinha pra não queimar a largada e começar a revolução nada à francesa na segunda-feira.

Então, a única alternativa que vejo é seguir priorizando as pessoas importantes e que deixam a vida melhor, recusando atividades que não fazem sentido. E hoje, só hoje, só porque é dia das mães, respirar fundo e tentar conduzir uma conversa com a parte da família que é de bem, em nome do bem comum, que está esquecido há tempo demais. Do jeitinho que nossas mães faziam quando a gente pedia pra sair, ou como Sócrates fazia sempre que dava de cara com uns atenienses muito convictos: com perguntas. Muitas perguntas. Mais e mais perguntas. Nada de flores, nada de floreios. Alguma pergunta?

Infinitas possibilidades

Deixe um comentário

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora