Não é você, sou… – não, pera!

Viviane Silva

Vira e mexe a gente precisa fazer ajustes e terminar relacionamentos – coisa que eu odeio e com a qual tenho enorme dificuldade. Por conta desse probleminha é possível que uma vez ou oito eu tenha usado o argumento “não é você, sou eu”. E todas as vezes, esse argumento foi verdadeiro em alguma medida. Porque na verdade não se trata de nada que o outro seja ou faça ou queria. Trata-se do que a gente é ou faz ou quer. Acontece. Do lado de cá, do lado de lá.

Há um tempo, precisei colocar um fim num lance que não vinha funcionando. No meio da conversa, já cansada e notando um pouco de irritação do outro lado, soltei essa frase. O plot twist desse embate foi ouvir que sim, que deve ter rolado uma idealização mesmo, que talvez eu não fosse tudo aquilo que ele pensava. Não lembro que rumo a conversa tomou, mas eventualmente a coisa se resolveu. Mas daquele fragmento da interação nasceu essa crônica.

Essa dinâmica me fez pensar e perceber que todas as vezes que eu soltei a bendita frase, foi por acreditar que eu, de fato, não achava que fosse tudo aquilo, e não pra amenizar uma situação tensa. Infelizmente nós mulheres estamos condicionadas demais a nos diminuir para não sermos taxadas de arrogantes, para não chamarmos a atenção demais, para sermos agradáveis, para cabermos em caixas projetadas na baixa idade média – dos mais variados nano-tamanhos e desconfortáveis formatos.

Entre amigas que amam psicanálise, esse bordão causa um auê interessante e vai ajudar a trazer à tona algo que se esconde por trás desse tipo de discurso. Mas no momento de frustração de expectativas de um relacionamento afetivo/sexual, essa fala só serve mesmo de munição contra a gente. É muito fácil cair nesse lugar e para mim, o erro está em dois pontos: na modéstia desmedida imposta principalmente às mulheres e na dificuldade de colocar o ‘não’ sem culpa e sem justificativas protocoladas em noventa e duas vias. 

Vale lembrar que o direito da não autoincriminação é garantido pela legislação brasileira. Depor contra si é contraintuitivo, contraproducente e contraditório. Eu sou tudo aquilo mesmo. A gente é tudo aquilo sim. Também sou ruim de matemática, transito o tempo todo pela linha tênue entre a independência e o individualismo, não entendo direita e esquerda, faço um excelente café da manhã, tenho o foco de um hamster, sou afetuosa com quem merece, briguenta com quem aperta meu crazy. Sou o combo todo. E um monte de outras coisas que meu senso de autopreservação não deixa revelar. Diferente de todo mundo, igual a todo mundo. 

Tudo aquilo e mais um monte de coisas 😂

2 comentários em “Não é você, sou… – não, pera!

  1. “Uma vez ou oito”, hahahahah! Que bom e que grande alívio poder ser o combo todo ❤️

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