Viviane Silva
Eu amo ser mulher, mas às vezes a sensação é de que a gente vive aquele 7 x 1 de 2014 todos os dias. Logo na segunda-feira, para evitar que uma treta leve com o boy se transforme em algo mais chato, peço um tempo pra responder com calma. Entre monossílabos, a conversa eventualmente precisa acontecer. Fico surpresa quando percebo que em nenhum momento passou pela cabeça dele que ele pudesse ter pisado na bola. Se a situação tivesse sido inversa, eu (e possivelmente milhares de manas mundo afora) teria perdido um tempão me perguntando o que fiz de errado. Homem raramente sente culpa. Gol da Alemanha.
Na terça-feira, ouço uma menina chorando no banheiro da escola porque o menino que ela gosta ficou sabendo disso e o comportamento dele mudou. Segundo ela, nem era uma paixão muito lá essas coisas, era só vontade adolescente de beijar. Mas ele passou a fazer gracinhas. As mulheres são educadas, via construção social, para aprender a analisar e falar sobre seus sentimentos. Os homens seguem fazendo piadas. Gol da Alemanha.
Na quarta-feira, com a sensação de que a semana ainda pode melhorar, surge do outro lado do campo um atacante insistente. Ele dribla toda a minha zaga composta pelos nãos mais veementes que eu já fui capaz de produzir e renova o convite. Recua apenas quando falo que estou saindo com alguém. Homem não respeita “não” de mulher; homem só respeita “não” de outro homem. Gol da Alemanha.
Na quinta-feira, dia de #tbt, posto uma foto num lugar incrível e entre as notificações, vários comprometidos botando a cropped e reagindo como se não fosse dia dos namorados no final de semana. A coisa piora quando lembro que já ouvi de namorada de um tipo desses que ele é ciumento e briga quando ela recebe curtida de ex. Homem tem código de conduta adaptado pra conveniência deles. Gol da Alemanha.
Na sexta-feira, entrego pra Beyoncé e saio pra beber com algumas amigas. Não demora muito até ouvir sobre um lance que acabou mal. Uma amiga gata conta que o boy com quem ela passou algumas semanas de papo e teve dates incríveis, apareceu nas redes com outra. Quando ela o chamou pra conversar, ele se irritou e mandou o clássico “mas a gente não tinha nada sério”. Nem responsabilidade afetiva, aparentemente. Gol da Alemanha.
No sábado, pesquisando dados pra escrever esta crônica, aprendo que as três maiores goleadas em mundiais foram femininas. Mas também fico sabendo que a filha de um amigo vai treinar handebol em vez de futsal, porque a mãe dela acha que é coisa de menino. Machismo arraigado até onde não se espera. Gol da Alemanha.
No domingo, que dizem ser o dia do senhor, ninguém aguenta mais. Tenho outro artigo da pós pra escrever, um apartamento pra limpar, compras pra fazer, meu orçamento pra organizar, contas pra pagar. Fosse o dia da senhora, provavelmente a história seria diferente. Gol da Alemanha.
E então, vendo o jornal e as redes sociais, me pego feliz com a goleada das minhas manas: de discussões políticas à arte, dos romances novinhos em folha aos divórcios, da vida acadêmica ao empreendedorismo, a lista é longa. E me dou conta de que esses (a)fazeres todos são nosso lindo gol feminista, ainda que marcado aos 44 do segundo tempo. Não ganhamos a partida, mas com esse monte de canetas e chapéus metidos no patriarcado, garantimos que ainda haja muito jogo pela frente.
