Viviane Silva
Acorda uma hora mais cedo, corre, escreve, organiza a agenda. Agenda cheia – ontem, hoje, amanhã, sempre. Desempenho, desempenho, desempenho. Um pomodoro, dois pomodoros, vinte pomodoros. Produtividade, produtividade, produtividade. Mas e o bem estar? Tem bem estar também. Pilates, corrida, ioga, meditação. Isso, meditação. Estudos comprovam aumento da massa encefálica com a prática diária de meditação. Medita, medita, medita. E aí, será que a massa encefálica cresceu? Putaquepariu, o sono! Tem que dormir, não tem que dormir, enquanto você dorme os outros cochilam – não pera, como era mesmo? Ah, sim, tem que dormir xis horas. Mas e o sono rem? É o sono rem que conta. Coloca o app pra funcionar, dorme, acorda, não levanta – mas e o xixi? Até o sono tem performance e não tem muito o que não fazer.
Parafraseando minha bestie, parafraseando Byung-Chul Han, eu quem na Sociedade do Cansaço? Nesses tempos, quem não tá cansado, tá exausto. Mas e aí, o que sobra? Comer coisas bonitas acompanhadas do nosso vinho favorito para cuidar da Sociedade Paliativa. Então, no fim de um dia caótico, ao preparar algo pro jantar, fui até o canto mais verdinho do meu apartamento e colhi algumas folhas de manjericão. Notei que a plantinha estava linda e estável – diferente do resto de nós, vamos admitir. Como qualquer adulto normal, acabado e com fome, fiz uma foto e postei nos stories antes de decorar meu petisco saudável.
Como as respostas e reações me notificaram antes do forno, fiquei pensando no sucesso da verdinha. Sim, eu acho que já posso dizer que aprendi a cuidar das minhas. Orgulhosa, fui responder que sim, claro que posso ensinar o segredo revolucionário. Há algumas semanas, precisei de ajuda com um bambu da sorte. Na flora que eu adoro, fui atendida com atenção e sem pressa pela Gabi, que pediu que eu confiasse nela e não me assustasse demais. Num movimento rápido e certeiro, ela CORTOU um galho do meu bambu e o fincou na terra de volta. Como previsto, fiquei sem reação – até porque, não tinha outra alternativa.
Pra minha surpresa, não só o bambu sobreviveu como o galho brotou. Ela me explicou que o mesmo daria certo com o manjericão: é preciso cortar AS-FLO-RES para que ele continue vivo. É preciso evitar que a planta chegue à conclusão de que sua missão no mundo está concluída. Os biólogos que me desculpem, mas eu nunca ia imaginar um negócio desses. Assim, tomei coragem e podei uma jiboia que mora numa estante de livros – a ver como a minha serpente botânica reage.
Então, por motivos de prostração diante de um Brasil, de um mundo, de seres supostamente humanos, que decidiram retroceder em vez de avançar, hoje não tenho nada engraçadinho pra colocar nessa crônica. Tenho só umas poucas conclusões para compartilhar. Apodere-se de suas tesouras e faça cortes necessários antes que seja tarde. Evite apenas aqueles que comprometeriam seu réu primário. E, mesmo indo na contramão da aceleração que a dita modernidade impõe, de tempos em tempos, se dê um tempo. Tempo pra sumir, tempo pra ler, tempo pra olhar como a incidência da luz do sol muda durante o ano, tempo pra escrever, tempo pra ouvir alguém contar algo que você não sabe – chora, Sociedade da Transparência.
Parar tudo na parte do tempo em que o capital não te subjuga não é desperdício; não olhar pro relógio e ficar alguns momentos longe do mundo do planner não é improdutividade; curtir um cafezinho acompanhado de um dedo de prosa não é coisa de quem não tem o que fazer; parar o tempo nesse presente distópico não é ficção, é revolução.
