Café?

Viviane Silva

Café pra mim sempre foi muito mais do que aquele pit stop diante da cafeteira antes de sair pro trabalho. Troco sim, preciosos minutos extras de sono só pra sentir o aroma e sabor de um café bem feito. Descobri ainda criança que os abraços poderiam caber em pequenos copos americanos fumegantes que embaçavam a paisagem verde vista da janela da cozinha no sítio dos meus avós. Mais tarde, me rendi ao charme das delicadas xícaras de porcelana com desenhos de florzinhas desbotadas. Hoje, sou mais adepta das canecas debochadas da menina que faz letterings.

O café, para aqueles que se deixam seduzir, abre uma gama enorme de possibilidades porque, diferentemente de outras bebidas, traz a segurança de um clima leve e despretensioso. Quer chamar alguém pra sair sem se complicar? Café. Quer desabafar com uma amiga? Café. Pausa no meio de uma tarde de trabalho burocrático? Café. Acordar alguém de um jeito especial? Café. Colinho da vovó? Café. Ah, mas tá calor… – Café gelado.

Soma-se a isso o fato de o café ser a perfeita representação das personalidades ditas difíceis: só quem tem o paladar aguçado vai saber interpretar uma doçura que não vem do açúcar. É o caso do catuaí amarelo da Maristela, por exemplo. Segundo especialistas, a doçura natural fica evidente porque despir o grão e deixar apenas a fruta madura requer menos trabalhadores e mais investimento, o que por sua vez, exige processos específicos (de nome lindo!, cereja descascado) ou parcerias fortes. Nesses dois casos, descobrimos corpo natural e sabor autêntico, em que se identifica tanto acidez quanto doçura.

Pense agora no ritual. Ninguém vira uma xícara de café quente de uma vez. Não. Tudo começa quando os grãos vão ao moedor e a água, filtrada, vai ao fogo. Pesquisando mais um pouco, vemos então que também a água tem seu papel. Tempo demais no fogo, e a água corre o risco de queimar os grãos. Tempo de menos, e ela não consegue extrair alguns compostos interessantes. Concluímos que uma experiência pode se perder tanto na demora quanto na pressa. 

Outra questão envolvida nesse ritual é que ele vai depender do tipo de café que você quer. Coado. Espresso italiano. Duplo. Prensa Francesa. Globinho. Chemex. Aeropress. Hario V60. Café Turco. Irish coffee. Caffè latte. Macchiato. Mocha. Cappuccino. Café de padaria. Cada café é único, assim como cada pessoa que divide a mesa da cafeteria com a gente. São combinação tão únicas que raramente conseguimos replicar uma experiência dessas. Que sorte, não?

Mas se são tantas as possibilidades, como escolher? O mundo oferece uma gama enorme de sensações, e se todos os dias nos colocamos diante de um sem fim de opções, decidir explorar as muitas personalidades de um café é, na verdade, a parte fácil. Basta sentar numa mesinha tranquila, pegar o cardápio, deixar o café te escolher e se abrir para a experiência. De que outra forma você vai saber se prefere a leveza da torra média clara ou a intensidade da torra escura?

* Variedade: Catuaí Amarelo
* Fazenda: Sítio São Luiz
* Região: Norte Pioneiro do Paraná
* Processo: Cereja Descascado
* 87 pontos
* Como, onde e porquê: Maristela, Arabicália, Cafeminismos

Primeiramente

1 comentário em “Café?

  1. Que leitura deliciosa! Vou até passar um café ☕️

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