Café à beira-mar

Viviane Silva

Como tantos paulistas médios, tantos românticos de boteco e tantos trabalhadores cansados, eu gosto do mar. Houve um tempo em que pensar em fazer parte da manada que descia na sexta e subia no domingo me dava uma preguiça enorme. Até que veio a pandemia e tirou de nós tudo aquilo que tínhamos como certo. Não podia nem ir pro trabalho. E se chegamos ao ponto de não poder ir pro trabalho numa sociedade capitalista é porque a coisa ficou séria. 

Não pode juntar os amigos, não pode abraçar, não pode ir pro bar, não pode tocar em nada, não pode ir pra lado nenhum. Não pode. E eis que nasce um desejo, uma vontade. Devidamente controlada, higienizada, distanciada, mascarada, isolada, mas ainda assim, uma vontade. Louca. Os meses passam, passa um ano. Mais meses. Chegam as férias. Não pode. Uma sequência de acontecimentos. Não pode. Mas eu preciso fugir desse lugar! Não pode! Mas se for vai logo porque final de semana é pior. E eu vou logo. Risco calculado ainda é risco. 

Alugo um estúdio pelo Air BNB, encho uma mala enorme sem esquecer o kit sobrevivência: pipoca e vinho pros jantares. Levo um pouco de trabalho também. Chuva e frio, ótimo sinal. Não vai ter ninguém e eu vou ser o próprio alecrim dourado no litoral em pleno inverno. O problema é que é o inverno brasileiro. E a temperatura sobe durante o dia. Talvez não tenha muita gente durante a semana, né? Coloco as preocupações de lado e decido aproveitar os dias nublados. Vinho de frente pro mar à noite, fotos da paisagem durante o dia. O tempo passa mais rápido na costa e de repente é quinta-feira. Caminho até a panetteria ao lado do apartamento, pra curtir a vista e tomar um café. Vai ser perfeito.

Água brilhando sob o sol que vai alto no céu claro, temperatura subindo – dia lindo. Ao fundo, um som hipnotizante. O mar? Não, o liquidificador. Os sucos detox são a ordem do dia, bora pedir? Os minutos vão passando, as mesas vão sendo ocupadas. E agora, Viviane? Japamala no pulso, peço café coado, ovos mexidos e um sinal dos deuses. Nesse instante, um cachorro chamado Shiva – Shivão pros íntimos – entra no café acompanhado de um irmão igualmente peludo levando os donos para uma mesa grande no canto. Eles insistem que os cães bebam água enquanto a mesa do café é higienizada. Entre pêlos de cachorro voando e pessoas caminhando no calçadão, percebo que o esquenta do final de semana prolongado está começando. Shivão e seu irmão se sentam com certo embaraço ao lado do casal que não entendeu a regra de só tirar a máscara quando o pedido chegar. Coitado do Shivão, coitado do irmão dele.

Ouço outra música linda, preparo o SoundHound para descobrir o nome e adicionar à playlist quando o liquidificador começa outra vez. A paz de um café à beira-mar? Tem, mas acabou. Insisto mais um pouco até descobrir que a música ao fundo é La Mer, de Sylvia Bennett. Depois dela, Beyond the sea, de Rod Stewart. Sim, meus amores, o café tem uma playlist temática. Impossível não amar. Vai ser ótimo pra ouvir subindo a serra depois liberar a mesa e deixar meu lugar ao sol pros foragidos que tiveram a mesma ideia original que eu. Aproveitem a praia, pessoal! Parece que vai fazer tempo bom.

Café de frente pro mar? Yes, please.

5 comentários em “Café à beira-mar

  1. Amei, V! O som do liquidificador atravessando a playlist é uma descrição deliciosa e aplausos para o parágrafo final. Bela crônica!

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    1. Obrigada por mais uma leitura atenta e generosa! ❤️

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  2. Avatar de LeilaLeila

    Delícia de texto!Amei!

    Curtido por 1 pessoa

  3. […] De novo, fui pluralizada. A última vez em que isso aconteceu foi quando aluguei um estúdio em Ubatuba, em julho do ano passado. Estava frio e eu queria um destino sem muitos turistas. Li e ouvi o […]

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