Viviane Silva
Tive um sonho estranho outro dia: eu abria um vinho tinto argentino que havia ganhado de presente, me surpreendia com a rolha pomposa e quando via a taça sendo preenchida por vinho branco, a decepção caia como chuva torrencial. Quando olhava o rótulo, me dava conta de que dizia “vinho branco”. Como pude não ver que o rótulo já havia me alertado? Como pude ignorar a informação tão claramente explicitada? Estava tão afoita pela experiência de beber o vinho que me esquecia de checar o conteúdo?
Com essa história na cabeça, redobrei a atenção quando abri um francês incrível ontem. Sabor delicado, aromático e leve, de um vermelho menos intenso. Entrei no aplicativo em busca de mais uma garrafa, mas… esgotado. São tão raros assim os vinhos de que eu gosto? Então, entre sonho e realidade, comecei a pensar no que me seduz tanto nos vinhos.
Admito que, embora saiba mais ou menos de quais uvas eu gosto, minha escolha começa pelo rótulo. Péssimo, eu sei, mas como não sou nenhuma sommelier, tendo a demorar meu olhar sobre rótulos charmosos, com fontes onduladas e cores sóbrias. Rótulos coloridos demais me deixam um tanto descrente. E aqueles esnobes e parecidos entre si não me dizem nada. Às vezes também me pego observando garrafas maiores e rótulos sofisticados, para então me assustar com o preço. Vinhos jovens já não me chamam a atenção. Certas coisas precisam de uma temporadinha de maturação num barril de carvalho, não é mesmo?
Então, passada a etapa das aparências e superadas as barreiras orçamentárias, a seleção natural vai me levar pros vinhos secos. Diferentemente dos vinhos suaves, os secos revelam a complexidade de notas frutadas, amadeiradas, especiarias, sem tentar cobrir nada disso com muito açúcar. Sinto isso como aquela honestidade boa, de uma adega que conhece sua matéria-prima, arrisca-se entre combinações de uvas e os desenvolve com a paciência do tempo de guarda.
Isso sem falar no aroma. Quando girada de leve, a taça faz dançar o mais brut dos vinhos, dando dicas das notas secretas que encontramos quando conseguimos passar desse flerte inicial com a taça. Com um pouco de sorte, as lágrimas escorrendo por dentro do bojo farão linhas delicadas sinalizando um pouco de álcool e a beleza de um rubi intenso.
Outro fator importante é o corpo, o que vai depender do clima. Curtir um al fresco regado a vinho rosé pode ser muito bom numa tarde de domingo, mas no inverno, são os vinhos mais encorpados que aquecem e alimentam. Longe de ser uma experiência divertida para pessoas mais afoitas, esses vinhos são avessos à pressa, e talvez peçam alguns minutos no decanter, deixando expectativas em suspenso antes de finalmente chegar à boca. E quando chegam, deslizam pela língua suavemente enquanto agitam nossas papilas gustativas revelando sua doçura, sua acidez e seus taninos.
Por fim, o gosto que permanece – curto, médio, longo – pode trazer ainda novos sabores e surpreender suas preferências. E aí, impressões iniciais confirmadas?

Várias lições inestimáveis em uma única tava de vinho 🍷cheers!
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Cheers! 🍷Que nunca nos falte vinho – e filosofia!
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Vlosophy 🍷
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Dos eventos que só são possíveis com vc! 😂
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