Viviane Silva
Cidade viva, máscaras e mais máscaras agitam-se em todas as direções na Vila de Jundiahy. Sobem da Rangel pela Galeria Bocchino, por causa do sorvete, claro, e descem pelo Largo São José. Um senhor de olhos puxados e estatura baixa caminha, apressado, gritando impropérios e fazendo ameaças; dá as costas para a catedral, indignado com algo que aparentemente merece um tiro. Surpreende a mulher trans que sobe a ladeira na elegância do seu salto alto, sorriso bem delineado e preenchido com batom vermelho marcando o contraste com a pele negra, que segura o riso e a casquinha de chocolate. Seus olhos debochados encontram os olhos perplexos de uma mulher que não disfarça a confusão diante da fachada da loja de produtos naturais “Du Loiro”, que em seus tempos dourados já foi Diabo.
O sol vai alto e as ruas estão cheias. Um locutor de rádio engraçadão faz piada com a moça bonita, com o casal apaixonado, com a dona apressada. Do outro lado da rua, a igreja aos pés do engraxate que engraxa um sapato sem pé. Mais alguns passos, uma porta aberta servindo de moldura para um pequeno grupo que conversa diante de um painel. Sons abafados, cliques curiosos e gestos certeiros trazem os olhos do guardião dessa história para fora do casarão. A colônia e o cheiro de tabaco chegam antes dele. Apresentações e anúncios e convites intercalados com risadas e cliques e mais histórias.
Do outro lado da porta, dentro do casarão, painéis, pergolados, flores. Entre braços e abraços, entre palavras e contos, os pássaros cantam – on demand, de dentro do QR Code. Os minutos caminham devagar pelo jardim, contornam os canteiros, sentam-se nos bancos. Bem-me-quer, mal-me-quer, bem-me-quer, mal-me-quer… bem-me-quer? Lugar de margarida é na terra, sabia? Das árvores altas, sombra; das árvores médias, frutas; das árvores pequenas, promessas. E das árvores antigas? Ah, das árvores antigas, uma casinha. Casinha de gente pequena que sobe, e escala, e solta gritinhos, e ri. Até a hora de ir embora. E é preciso ir embora porque os minutos agora têm pressa e têm fome – os minutos expulsam as pessoas que arrastam as crianças.
Dizem que o costume era ter azulejos. Mas que azulejos são esses? Azulejos, minha filha! E se tem azulejos, a pesquisadora encontra. Mas antes, um café. Antes, um esbarrão. Antes, um pulinho. As praças sequestradas começam a ser libertas. No som que escapa do fone do moço, as escadas levam ao céu. Na realidade da moça, a rampa leva ao inferno de recolher cocô de cachorro. O caminho do meio é a caçada aos azulejos – não tem golden hour e ainda faltam duas paradas. Senador e Prudente. Seria prudente inverter a ordem das coisas, dos cliques, da rota? Senador precisa de olhos que os vigiem, não de tempo. A parada é rápida e mais rápidos os carros que passam. Prudente espera e oferece sua luz mais bonita. A luz dos postes presos à confusão do emaranhado de fios que esqueceram pra onde vão. E nós, pra onde vamos?
Vamos pra onde vão os problemas, as angústias, os temores. Vamos pra onde coabitam a cachaça e o chopp. Vamos pra onde os bolinhos são quentes e os frios na tábua são baratos. Vamos pra onde a mesa fala de amor e os ébrios falam de dor. Vamos pra onde a caneta desliza sem esforço riscando números na comanda e emperra no meio das letras na carta que não é a de vinhos. A lua segue alta, mas a cidade tem sono. Garçom, passa a régua. Termina o dia na Fermosa Vila de Jundiahy.

Jundiahy. Obrigada por essa crônica e por curtir nosso lugar comum 💙
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Obrigada por me levar por lindos lugares comuns! 💙
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