Viver é muito perigoso…

Viviane Silva

O perigo começa quando toca o alarme. Dependendo do estardalhaço, aumenta a intensidade dos batimentos cardíacos. Tenho quase certeza de que o som dos alarmes modernos devem ter feito suas vítimas por aí, mas por algum motivo saíram ilesos. Levantar e ir pro banho já implica no risco de quedas e esbarrões e escorregões que podem ser fatais. O café da manhã não é assim tão inocente – você escapa da salmonela se os ovos forem mexidos mas pode engasgar com alguma coisa.

Ir pro trabalho, além de reduzir seus momentos de lazer, só faz aumentar os riscos: assaltos, acidentes de trânsito ou sufocamento pelos sapos a serem engolidos. Se o trajeto incluir ouvir o noticiário, arrisca-se uma síncope nervosa com os absurdos que o brasileiro precisa lidar. Se fizer sol demais, pode-se sofrer uma insolação; se chover, há sempre o risco de sermos atingidos por um raio bom de mira. Isso sem falar nos riscos das escadas, passando-se por cima ou por baixo delas. Vimos desenhos animados e filmes de terror demais nos anos 90 e sabemos o que pode acontecer. E não vamos nos esquecer da pandemia e dos riscos de contaminação. Desse vírus e dos próximos.

A tudo isso, adicione agora os riscos que não são de morte, mas de vida. Se usar WhatsApp, seu telefone pode ser clonado e vão sair por aí pedindo dinheiro pros seus contatos – e pior, pros seus contatinhos. Se usar cartão, podem te quebrar com compras que você sempre quis fazer mas que na queda de braço das prioridades, perderam pros boletos do mês. Se usar aplicativos de relacionamento, existe sempre o risco de marcar encontro com algum doido que vai se indignar se você não cumprir a agenda dele.

Se por outro lado você encontrar uma pessoa não doida, vai ter riscos também. Pode ser que não tenha química. Pode ser que tenha química, mas você queria mesmo um pouco de história. Tem ainda o risco de dar certo e o romance precisar sair daquele mundinho particular e habitar a realidade, com horários, almoços de família, sono compartilhado. Ou o risco de estar tudo bem até aquele pisão no calo ou uma entrada no seu calcanhar de Aquiles no meio do jogo. E aí? Você faz o Neymar e sente até o que não doeu ou o juiz manda seguir?

Quando essa análise começou, os planetas estavam alinhados e tudo caminhava bem. Conforme corria atrás de fatos e estatísticas, um tropeço em alguma coisa que estava jogada no chão mudou um pouco o rumo da coisa. E agora, no final desse estudo cabal sobre riscos, lembrei de alguém que me ensinou bastante sobre o assunto: um cara que foi sabiamente apelidado por mim e pelas minhas amigas de Paper Boy, por conta dos “papers” e artigos científicos que ele sempre citava enquanto tentava ponderar se deveria ou não assumir os riscos de me ver com mais frequência. E esse lance era chato pra um caralho.

Portanto, a única conclusão possível dessa pesquisa é que ela seja cancelada. Convenhamos, no meio de tanta coisa que pode ou não dar ruim, a gente ainda precisa mesmo dessa chatice toda, meu caro Schrodinger? Vai logo ver o diabo na rua, no meio do redemunho que ele não tem o dia inteiro.

O diabo na rua, no meio do redemunho…

4 comentários em “Viver é muito perigoso…

  1. Que finalização maravilhosa, V! Amei essa crônica ❤️ #paperboy

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    1. Obrigada por me ler e por estar tão presente na minha vida! 💙

      Curtido por 1 pessoa

  2. Avatar de Anna LauraAnna Laura

    Adoro suas crônicas!! 💜

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada por me ler! 💙

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