Viviane Silva
Coup de coeur, ou golpe no coração, em tradução literal, é a melhor expressão para falar de Paris. Cada rua, cada parede, cada monumento, cada artista, cada banco de parque em Paris é exatamente isso. A cada esquina, um coup de coeur diferente. A cidade toda parece ter criado o conceito de paleta de cores e a arquitetura vive em perfeita harmonia com dias de sol e dias nublados. Com o anoitecer, não existe a menor chance de alguém sair ileso da cidade luz. Quando meus olhos encontraram a Torre Eiffel pela primeira vez, o mundo parou por alguns instantes. Não, ela não era tudo aquilo que alguns diziam. Era muito mais. Coup de coeur fulminante.
Me hospedei num hotel charmosinho no Boulevard Edgar Quinet, em Montparnasse, para me sentir mais próxima de uma das histórias de Madame Beauvoir. Felizmente a literatura não me preparou para um affaire com a minha primeira noite parisiense no 14º arrondissement. Num daqueles restaurantes furtivos de pequenas mesas redondas e vista para a avenida, a taça de poucas curvas e bojo largo deixava no ar um bouquet aromático que inebriava e seduzia no exato instante que tocava a boca – inesperadamente, l’amour!
Noutra noite, Paris me surpreendeu com um tipo diferente de coup de coeur. Era uma segunda-feira, e eu havia andado o dia todo pela Ìle-de-France, margeando o Sena e me apaixonando, como vinha fazendo há quase uma semana. Encontrei o café Set in Paris, no Quai de Montebello, com uma plaquinha simpática que dizia “Meet the puppy!” Sendo eu uma pessoa atravessada pelas palavras e adepta de qualquer oportunidade de sérendipité, me rendi à mesinha que trazia minha fala favorita do filme Meia-noite em Paris.
Entrei quando o sol ainda se esforçava para terminar o dia. Tomei um espresso acompanhado de macarons, conheci o cachorrinho, a dona do café, e mais tarde, um amigo do marido dela. Um francês de olhos verdes, pele levemente morena e cabelos castanhos, que havia deixado Lyon há poucos dias e experimentava seu próprio coup de coeur. Ficamos os dois conversando por horas, ele tomando cerveja, eu degustando um rosé delicado. Não vimos o tempo passar. Também não trocamos telefones.
Paris, ao mesmo tempo, arrebata e devolve à vida. Paris não mede esforços e não mede sua força. Paris te conduz delicadamente pela mão, te convida a subir por uma longa escadaria de passagens estreitas até o topo da Sacré-Coeur para que você tenha uma leve noção do que ela é capaz. Paris logo revela toda sua imensidão entre os balaústres de travertino da torre mais alta da Basílica, e você vai entender que está num ponto sem retorno. Paris então pede que você se entregue ainda mais. E você aceita. Porque Paris não é a cidade pra onde você deve ir se estiver apaixonada. Paris é a cidade pra onde você vai justamente para se apaixonar.
