Tem alguém assistindo?

Viviane Silva

Diferentemente da maioria das pessoas que eu conheço, não gosto de maratonar séries. Assisto sempre a conta-gotas, enquanto preparo e tomo meu café, ou na hora do almoço. Algo entre meio e um episódio. Raramente vejo mais do que isso de uma vez só. E no horário nobre do final de semana eu prefiro investir minhas pipocas em um filme, que pode até ser parcelado entre o sábado e o domingo, dependendo do meu cansaço. Suspeito que isso se deva ao meu baixo nível de concentração na pandemia, porque na verdade eu adoro séries. A ideia de um grande filme, dividido em episódios com mais ou menos o mesmo tempo de duração, agrupados em temporadas com mais ou menos o mesmo número de episódios, deixa meu coração virginiano satisfeito. É um conceito tão prático que não consigo pensar em coisas que não se beneficiariam do modelo Netflix de organização. 

Peguemos o casamento, por exemplo. Nunca tinha sonhado em casar, mas [spoiler alert!] casei: troquei uma certidão de nascimento por uma de casamento. Fiquei arrasada quando me dei conta de que tinha deixado de ser um indivíduo para ser a esposa de alguém. Minha sorte foi não ter me saído bem nesse papel, e aí a decisão foi revogada com uma averbação que me deu o status de ex-esposa de alguém. Nada contra meu (agora ex-)marido, que é um cara divertidíssimo, mas se os casamentos fossem como os seriados, em vez de um processo chatíssimo de divórcio, de honorários de advogados e burocracia, bastava optar por não renovar a franquia. Temos no catálogo oito temporadas – queremos mesmo mais uma? De quantos episódios precisamos pra resolver esse conflito? Alguma chance de plot twist? 

Game of Thrones foi, nos primeiros anos, aquele casamento perfeito e cheio de emoção, que acabou mal na força do ódio e por culpa da insistência. Tentaram, tentaram, tentaram, mas no fim das contas, a renovação só serviu pra irritar o público. Big Little Lies foi o lance gostoso que até sustentou a primeira renovação, mas que precisou aceitar seu fim na segunda temporada. A jovem The Queen’s Gambit veio decidida para uma única temporada – que bom, a gente sabia que era só isso mesmo. Little Fires Everywhere, ainda que intensa, foi igualmente realista. Acabou com choro – ou fogo – mas sem muita vela. Cidade Invisível foi incrível, mas a ideia da renovação me preocupa.

Não me levem a mal, não estou defendendo o cancelamento total dos casamentos nem das séries depois de umas poucas temporadas. Acredito que um tempo pode fazer bem aos envolvidos. Sex & The City brilhou em seis temporadas e anos mais tarde descobriu que queria viver outras coisas. Foram duas aventuras internacionais divertidas, e em 2022, mais madura, vai viver uma terceira. Já The L Word foi gostosa por seis temporadas; não renovaram a sétima e tudo bem. Novas séries foram lançadas, algumas foram canceladas e eis que dez anos mais tarde, com as voltas que a vida dá, a chama se reacendeu em um lugar novo. The L Word conheceu a Amazon Prime e temos agora a Generation Q. Sem os rancores de brigas jurídicas puderam engatar num romance de novo.

Claro que não é só de revivals que vivem os telespectadores. Pode acontecer como em Friends, que tinha entre os bens acumulados ao longo de dez temporadas, milhares de fãs. Quase dezessete anos depois do fim, reuniu todo mundo pra um documentário. Deu certo, só que em outro formato, como um ex-marido que liga no aniversário ou uma ex-namorada que convida pro churrasco. As melhores séries duram enquanto o enredo segura a audiência e param quando têm coragem de perguntar: tem alguém assistindo ainda?

Clássicos pedem maiores investimentos

2 comentários em “Tem alguém assistindo?

  1. Alguma chance de plot twist? Essa pergunta tão simples e que serve pra tantas situações. Amei as analogias ❤️

    Curtido por 1 pessoa

    1. Obrigada por me ler! ❤️

      Curtir

Deixe um comentário

Crie um site como este com o WordPress.com
Comece agora