Manteiga derretida

Viviane Silva

Chovia bastante naquela noite. Joana, sem nem tentar conter as lágrimas, alternava seu fôlego entre soluços e goles de uma garrafa de conhaque que estava há meses no armário, quando teve uma dessas ideias que só um alto teor alcóolico pode inspirar. Para superar sua última desilusão amorosa, faria seu próprio “Comer, rezar e amar”. Obviamente não poderia se dar ao luxo de largar tudo e ficar passeando durante meses por três países, como a moça da história. Teria que ser só um país e por no máximo, dez dias. Nada de euros e nada de faxinar ashram. Iria para Bali. Nem que fosse para se hospedar num motel barato, desses de beira de estrada. Já que era preciso fazer o tal luto, que fosse em um lugar paradisíaco.

Abriu o computador, e começou a pesquisa. Quase engasgou com a bebida ao ver o preço da passagem. Como o mundo esperava que ela se recuperasse e voltasse a contribuir para o futuro quando se cuidar custava tanto? Ainda nem tinha começado a ver hospedagem e ficou frustrada. E depois ficou surpresa com a frustração. Por acaso alguma coisa havia sido fácil até ali? Ainda mais sendo mulher? E pobre, ainda por cima? Acabou pegando no sono. No dia seguinte, o que não surpreendeu foi a ressaca. E o torcicolo.

A chuva havia dado uma trégua e o sábado amanheceu nublado. O chão molhado e as árvores amarrotadas mostravam os resquícios da tempestade. Caminhou até a padaria para tomar um café. Já podia sentir o sabor da manteiga derretendo no pão quando levou um banho de água fria. Literalmente. Um carro que vinha na direção oposta passou por uma poça espalhando água pra todo lado. Quando o motorista se deu conta, parou e deu marcha ré. Era um carro moderno, com teto solar e tudo. Seu coração disparou. E se fosse o homem dos seus sonhos vindo resgatá-la daquele final de semana de merda para levá-la para uma existência mais digna?

Errado, outra vez. O motorista, embora muito solícito, era um homem feio. Gentil, mas feio. Que se há de fazer, não é mesmo? Agradeceu a preocupação, perdoou o incidente e seguiu. Por que a gente superestima tanto as coisas? Os rompimentos, os pãezinhos, os homens? Por acaso a vida não é uma sequência de eventos desconectados para os quais a gente tenta dar sentido? Teria mais cuidado na próxima vez. Com certeza. Entrou na padaria com a roupa encharcada. Sorrindo, o atendente indicou uma mesa e ofereceu uma toalha. Os joelhos pareceram amolecer por alguns segundos e ela se sentou. Será que ele é solteiro?

Pão na chapa não superestimado

1 comentário em “Manteiga derretida

  1. Derretidas unidas 👯‍♀️

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