Viviane Silva
Quando eu era adolescente, minha família construiu uma casa linda. Era um sobrado amarelo, que ficava numa esquina e para mim, era exatamente como morar numa grande torre de marfim. Gostava de me esgueirar até a sacada da sala no meio da noite, quando meus pais estavam dormindo, para me sentir um pouco poeta. Na minha imaginação juvenil, eu absorvia o sereno como se tivesse acabado de sair de uma taverna, inebriada de sentimentos muito intensos, sofrendo do mal do século. Lembro de dores muito intensas na alma causadas pelas minhas paixões nunca correspondidas, que me deixavam prostrada. Nada me consolava, nem mesmo sorvete de flocos.
Em algumas noites, ia pra sacada munida de papel e caneta, e escrevia quase às cegas. Noutras, lia e relia meus poemas favoritos. Ou ainda, levava um discman e ficava ouvindo a mesma música até a pilha acabar. Nessas ocasiões, eu precisava redobrar minha atenção aos barulhos da casa, e o fluxo de adrenalina me deixava em estado de alerta. Minha mãe não entendia como funcionava o coração e o relógio biológico de uma poeta ultrarromântica, e insistia que eu dormisse cedo, o que me exigia muita habilidade. Era preciso ouvir a música com um ouvido e manter o outro atento a qualquer sinal de perigo.
Enquanto não fui capaz de responder pelos meus próprios atos boêmios, levei essa aventura noturna literária até entrar na faculdade. Certamente protegida por Álvares de Azevedo, nunca fui pega. Pálida à luz da lâmpada sombria que vinha do poste da rua, consegui escrever um monte de poemas que por anos, alimentaram um blog chamado Acesso Restrito. Nenhum dos musos sequer soube que era tão profundamente amado. Mas isso era o de menos porque o que eu gostava mesmo era do arrebatamento. Quanto mais improvável o amor, melhor. Da mesma forma que meus poetas favoritos, meus objetos de desejo estavam sempre seguramente inalcançáveis, livres de todos os perigos, defeitos e concretude.
Imagine poder amar sem medida, sentir seu músculo cardíaco se retorcer e doer, sem correr o risco de descobrir que o moleque tem chulé ou que só pensa em videogame. Perfeito, como esses amores devem ser. Não há romance adolescente que suporte a realidade. Não há realidade que ofereça material interessante para bons poemas de amor. Descobri aos dezesseis que o amor era maravilhoso, e que só perdia para sofrer por ele.

Quanto mais improvável, melhor. Quanto mais indisponível também? Um de seus melhores textos, muito obrigada ❤️
CurtirCurtido por 1 pessoa
Gostinho do desafio? A ver.
CurtirCurtido por 1 pessoa
Obrigada por tudo! ❤️
CurtirCurtido por 1 pessoa