Viviane Silva
Quanta pretensão cabe num texto despretensioso? Dá pra não ter pretensões quando se escreve? Alguém consegue fazer algo pretendendo o absoluto nada? E as expectativas, dá pra não criar? A expectativa e a pretensão são aparentadas e na cara de uma é possível ver traços da outra. Nada de errado aí. Eu também tenho parentes com quem divido algumas sequências genéticas, e desde que a gente não precise se encontrar muito, está tudo certo.
Ao longo da vida temos os melhores mestres e constantes revisões nessas disciplinas, mas não atingimos a média. A gente sempre acha que o nosso jeito é o certo, o nosso argumento mais coerente, a nossa experiência diferente. Teste na mão, celular em punho, e diante da questão “responder ou não?”, entregamos os pontos e a dignidade que restava.
Que fazer diante de tanta inabilidade? Reprovar caiu de moda e a estratégia agora é a famosa depê. Chamamos isso de oportunidade, que soa melhor, apesar de sabermos que ela é a mãe da merda. Seguimos desprotegidos e despreparados para os próximos desafios com progressões parciais debaixo do braço e várias questões deixadas em branco.
Como sair desse emaranhado de lições não aprendidas, tarefas não feitas e notas vermelhas, para produzir algo interessante e despojado e novo? Estudando, esboçando, escrevendo? Uma voz interior questionável, cafeína mostrando seus efeitos e as palavras começam a surgir na página. O coração dá sinais de que notou o friozinho na barriga e o sorrisinho besta estampado na cara. Seria uma crônica? Um poema em prosa? Um conto?
Escrever é esse flerte despretensioso e sem expectativas. No início, uma ideia tão sutil quanto uma frase de duplo sentido. Um pouco de curiosidade, um pouco de resistência, um pouco de preguiça, um pouco de insistência. Vai rolando. Até me dar conta de que outra vez saiu um texto pretensioso e cheio de expectativas. Exatamente a reunião de família que deveria ser evitada. Travestida de oportunidade ainda por cima. Aquela, que era mãe da merda. Apaga, começa tudo de novo.
