Viviane Silva
Viver a realidade não é das coisas mais fáceis. No mesmo dia em que vence o seguro, o aplicativo do banco não funciona, as demandas do trabalho parecem ganhar vida própria e as relações interpessoais só complicam as coisas. Por onde começar a resolver tudo isso? Simples: passando horas a fio no sofá maratonando uma série levinha e divertida. Anestesia garantida ou sua ansiedade de volta. Mas com a alta competitividade no mercado de streaming, já não dá pra contar com a velha fórmula do felizes para sempre em alguns minutos. Agora precisamos de relações mais dinâmicas, precisamos de enredos mais realistas, precisamos quebrar os clichês, precisamos do inesperado – e por essa eu não esperava.
Eu: Como assim eles terminam?????
Mari: Mas elas têm vinte e poucos anos, amiga.
Eu: É, eu sei…
Mari e eu, em intermináveis divagações
Semanas depois, em pleno dezembro, entro em outra espiral de alienação e procrastinação. Desta vez, faço uma opção mais segura e passo uma tarde inteira babando em personagens confiantes e bem vestidos. Até o dia seguinte, quando me deparo com uma coluna da Tati Bernardi, e descubro que ela e Pedro se separaram. Tati não tem vinte e poucos. Tati quarentou lindamente há dois anos. E de novo, por alguns instantes, ecoa na minha cabeça a pergunta “como assim?”.
Assim. E assim não quer dizer “do nada”. Mudanças podem levar anos, mas uma sequência de eventos pode acontecer em poucas semanas, e viver essas transformações é tão doloroso quanto intuitivo. Os rompimentos vêm como as tempestades. O céu vai se enchendo de nuvens, os tons de azul vão se misturando com a tensão até adquirirem um aspecto acinzentado, o ar se agita em ventos fortes e o temporal desaba. Dificilmente somos pegos de surpresa. Dificilmente não sabemos o que está vindo e talvez uma margem de erro honesta seja de apenas alguns dias.
Talvez exista um abrigo próximo, talvez a gente tenha um guarda-chuva na bolsa ou no carro, mas talvez não dê tempo de usar e em poucos instantes estaremos andando na chuva em meio a poças e sentindo os respingos e o vento cortarem nosso rosto e se misturarem com lágrimas mais ou menos resignadas, enquanto a água leva tudo que encontra pela frente, correndo apressada pela sarjeta.
Talvez seja uma chuva de verão apenas, e depois de uns poucos minutos de tormenta, venha a calmaria e o arco-íris quase faça esquecer como a coisa toda doeu. Talvez seja um tsunami numa praia que tenha ousado receber cidades e depois visto tudo ser devastado em poucas horas. No fim, só os destroços e uma comunidade esperando que Shiva a reconstrua. Porque assim são as tempestades, assim é o ciclo da água, assim são os relacionamentos, assim é a vida.
Os amores da adolescência, dos vinte e poucos e dos trinta e poucos chegam às suas chuvas ou tempestades, a vida segue seu rumo. Os ciclos continuam: ninguém está mais imune ou menos imune de acordo com a ordem de chegada no mundo. Da mesma forma que Tati Bernardi não estava aos quarenta e dois ou a editora-chefe da série aos cinquenta e cinco quando o espectro do divórcio apareceu diante delas.
Quando me pergunto porque os roteiristas se dão ao trabalho de colocar um romance gostoso numa série leve e divertida só pra desmanchá-lo mais tarde, imediatamente me lembro dos meus romances gostosos que precisaram acabar. Porque, romantização à parte, é assim que acontece com quem participa ativamente da vida. Viver e se relacionar é mesmo tentar construir uma casa em alguma praia no Círculo de Fogo do Pacífico e esperar pelo melhor.

Viver é muito perigoso. Parabéns pela beleza das reflexões nessa crônica, uma das minhas favoritas ❤️
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Biased 😂 Te amooooo!
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