Viviane Silva
A pandemia tirou tanto de nós que a cada encontrinho com as amigas, a cada mesa de bar, a cada celebração, a cada date, um misto de sensações nos invade. Em alguns minutos, o mundo pára, o medo dá uma trégua e a gente se permite respirar e viver. Nesses momentos, voltamos a ser quem éramos antes, voltamos pra algo que se perdeu no meio da apreensão que virou o novo jeito de existir.
Aproveitamos o pé na rua durante o apocalipse zumbi para abraçar e beijar e olhar e dividir. Trocamos, por algumas horas, o álcool 70 pelo álcool dos drinks, o distanciamento pelo toque, as máscaras pelos beijos, o estado de alerta constante pelo fodassy. E por algumas horas voltamos pra tudo aquilo que nos diferencia dos seres inanimados e desanimados do atual cenário mundial.
Não estou advogando a favor do vírus e recomendando o mais puro creme da vida louca. Estou defendendo o nosso lado humano, que se vacina, que usa máscaras, que evita aglomerações, que grita #forabozo nos protestos e que morre de saudades da normalidade. Se por um lado viver em estado de alerta é segurar a respiração embaixo d’água, baixar a guarda e curtir o momento é subir à superfície e sentir os pulmões se encherem de ar novamente – torcendo pra que seja só ar puro mesmo.
Naquela fração de segundos em que o date abre a porta do carro, as amigas abraçam pra selfie, o garçom traz o chopp gelado, as pessoas se juntam pra ouvir a aniversariante cantar, o mundo é bom de novo. A consciência de tudo que perdemos sustenta esse desejo de estar junto. Com esse grupo, com aquele grupo, com as besties, com os dates, com o país todo – bem, talvez nem tanto.
O outro lado do medo é a coragem ou o alívio? Ou os dois? Não sei. Sei que o medo, hoje pandêmico, que endurece trapézios e causa torcicolos à torto e (tomara!) à direitA, aos poucos acaba tornado-se endêmico e ficando restrito a áreas bem pequenas. Pelo menos por alguns instantes.
Se nessa hora de troca da guarda interna tivermos a sorte de estar entre amigas num jardim-bar secreto no meio de um quarteirão não tão secreto, só nos resta desbravar os drinks, dissecar as questões da semana, caprichar nos cliques e fazer a curadoria do que vai virar biscoitagem. Afinal, admitam, adultos do mundo, que quando tudo isso passar, nos reuniremos no mais uníssono “puts, hoje não vai dar!”, porque se o proibido é mais gostoso, é no liberado que a gente desencana.

É no liberado que a gente desencana. Maravilhoso, V ❤️
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Obrigada por estar comigo sempre ❤️
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