Viviane Silva
Quem ainda tem estômago para passar os olhos pelos jornais esse mês sabe que férias são aqueles dias em que a gente aproveita pra organizar um armário, fazer uma faxina, e tomar drinks antes do happy hour. São escolhas bem seguras, diante das opções do momento. Mas, se essa crônica existe é porque alguma coisa saiu conforme eu não esperava. Uma infiltração no teto do banheiro cortou a minha brisa no primeiro sábado de sol do ano. Imediatamente interfonei pro apartamento de cima e falei sobre o problema. O vizinho, mais solícito que eu esperava, me garantiu que falaria com o proprietário e daria “um retorno aí, pra vocês”.
Acho que as mimosas do dia não estavam mimosas o suficiente e eu peguei o pronome – vocês. Não era uma ligação de vídeo nem em viva-voz, e além da música, não tinha ninguém dando pitacos ao fundo. De novo, fui pluralizada. A última vez em que isso aconteceu foi quando aluguei um estúdio em Ubatuba, em julho do ano passado. Estava frio e eu queria um destino sem muitos turistas. Li e ouvi o pronome de tratamento “vocês” até decepcionar a recepcionista com meu eu singular e um monte de malas no dia da minha chegada.
De acordo com dados do IBGE de 2020, na série histórica PNAD Contínua, onze milhões de brasileiros vivem sozinhos, o que corresponde a 16,2% dos domicílios. Talvez esse número ainda seja baixo, mas está longe de ser não-significativo. Nem todo mundo mora com alguém, nem todo mundo viaja com alguém, nem todo mundo é vocês, nem todo mundo está vocês. E quem está vocês, precisa também lembrar que nem sempre as coisas foram ou vão ser assim. Compartilhar momentos é divertido, é mágico, é quentinho, mas degustar a individualidade é uma experiência… bem, única. Como algumas coisas precisam ser. Como algumas coisas simplesmente são.
Seja no âmbito das amizades, dos vínculos familiares ou dos relacionamentos amorosos, a maior parte do vocês ainda é o você, ainda é o singular, ainda é a composição de quatro letras e o plural é apenas o acréscimo de uma única consoante. Temos esse privilégio no português que serve pra lembrar do que somos feitos: radicais livres para aceitar sufixos, prefixos, transitar entre classes gramaticais, capazes de flexões incríveis e, se assim desejarmos, conjugar milhares de verbos – no singular e no plural.

Impressionante como traduziu todo esse agora lindo que eu ando vivendo há quase 2 anos! Tô amando ser “você” nos corres da vida! Aí que a gente vê como, sendo só “você” vamos nos rodeando dos vocês. Amei!
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Que conclusão linda, Raq! Amando te ver tão leve, tão cheia de luz e tão linda! Obrigada por me ler!
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Amei os radicais livres, it’s so us ❤️Você é muito necessária para nos lembrar do quanto o você é uma luta diária e valiosa
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Nós somos! Amo vc! Obrigada por me ler! ❤️
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