Viviane Silva
O fim da fila é ruim, mas o fim da espera é bom. Interromper um papo gostoso é ruim, mas interromper um negacionista é bom. Acabar o salário é ruim, mas acabar o mês e receber de novo é bom. Zerar uma caixa de Lindt é ruim, mas zerar uma caixa de antibióticos é bom. Terminar um relacionamento ruim é bom, mas terminar um relacionamento bom é ruim.
E se nessa vida existem finais felizes e não felizes, como é que faz pro saldo terminar positivo? Por que colocar um ponto final numa história dói? Por que fazer essa pontuação não fica mais fácil mesmo com a gente concordando com ela? Por que antes dessa ‘linha de acabar’, como diriam os ingleses nas corridas, o corpo vai dando sinais de confusão, o ritmo vai oscilando e a resistência vai aumentando a vantagem sobre a gente?
Ainda mais curioso (pra não dizer sádico), é que os términos não ficam relegados aos relacionamentos afetivos/sexuais. Terminam também os relacionamentos profissionais, inter-rompem-se os encontros casuais, afrouxam-se os laços familiares, quebram-se os vínculos de amizade: é o luto numa miríade de formas e contextos dignos de orgulho neoliberal. Se por um lado um rompimento implica em lidar com a ausência, lidar com o vazio, lidar com uma fome que não vai ser, ou que não pode ser, ou que não deve ser saciada, por outro lado, é o fim de um processo que nos confronta com a vontade ou a necessidade ou a possibilidade de provar ou tentar ou experimentar uma coisa totalmente nova.
Mas, de novo, se tudo que começa, termina, por que insistimos em começar coisas novas o tempo todo? Será que temos mesmo consciência de onde estamos nos metendo quando os meninos do Semisonic disseram que todo novo começo vem do final de um término? E se a dor passa mesmo ou se transforma, se a vida segue e novos laços se formam, se iniciamos novas amizades, novos amores, novos projetos, estamos cientes de que tudo vai acabar ou estamos crentes de que o que acabou foram os finais?
As rodas de samba, os bons drinks e os friozinhos na barriga têm fim. Mas, têm fim também as coisas que parecem intermináveis, como a espera do delivery, a pandemia e, se tudo der certo, o mandato do Bozonaro. E se alguns términos são bons, então é bom comemorar. Mas rápido, porque o final da semana que começa bem com happy hour e biscoitagem gratuita nos stories acaba na ressaca proletária do domingo à noite.
