Viviane Silva
Quando criança, sempre que me imaginava adulta, pensava numa moça alta, de pele morena, cabelos escuros presos em coque, que trabalhava usando saia de alfaiataria e salto agulha em verniz preto. Mais tarde e em menos detalhes, me imaginava morando sozinha num apartamento. Depois essa fantasia passou a incluir uma viagem de carro, em que dirigia usando um lookinho amarelo e óculos escuros ao som de música pop no volume máximo.
Com exceção dos fenótipos e dos figurinos, minha vidente infantil, como todas as videntes, acertou bastante. Se puder considerar alta alguém que alcança as barras de apoio no transporte público, a conta fecha. Já o guarda-roupa não vingou – amarelo e saias de alfaiataria não me caem bem. Aprendi a andar sobre saltos de todos os tipos com Melissas brilhantes – mas abandonei essa vida há alguns anos e hoje raramente uso algo desenhado por quem odeia pés. Frequentemente apelo pros coques no calor, mesmo sabendo que não pareço em nada com a moça bonita da minha imaginação de menina.
Aprendi a dirigir de verdade aos dezoito anos incentivada com veemência por um pai que não me daria mais que alguns minutos pra fazer drama depois de uma tentativa malsucedida. Viajar sozinha também aconteceu e continua acontecendo. Adoro estar a caminho de alguma coisa e de repente encontrar outra que me faça mudar de rota. Já encontrei lugares incríveis, pessoas interessantes e temas divertidos fazendo isso. Me levo pra jantar em bistrozinhos misteriosos e com maior frequência que deveria admitir, digo que estou ocupada no sábado à noite só porque quero ficar em casa com meus dois franceses prediletos – um na tela, outro na taça.
Nunca tinha sonhado em casar, mas casei. Também nunca tinha sonhado em me divorciar, mas me divorciei. Morei em outros dois apartamentos até conseguir arranjar um canto que me desse vontade de comprar móveis e dar nome pro gato. Estar sozinha, olhar pros cantos vazios da casa, pros cantos vazios dentro da gente e não ter medo do tipo de fantasma que pode aparecer é parte fundamental de ser uma pessoa completa. Não é triste. É curioso, é confortável, é importante, é surpreendente e, na maioria das vezes, muito prático.
A ideia de achar um outro que supostamente traga uma parte que falta me parece mais coisa da Mary Shelley com o Frankenstein dela que de um adulto minimamente funcional em 2022. Claro que eu adoro estar com as minhas pessoas e trocar ideias sobre livros e dividir um café e abafar o riso junto quando uma pessoa alta senta bem na nossa frente no cinema, mas depender de um outro para me completar e curtir a vida não é, nem de longe, meu propósito no mundo. Nem sempre é como eu planejo fazer as coisas, mas sempre tem alguma coisa que eu quero fazer quando estou sozinha.
Acho que justamente por isso todo mundo sabe – ou deveria saber – que meus convites não vêm de um lugar de carência, mas de um lugar de interesse. Interesse naquela companhia, interesse em ouvir aquelas histórias, interesse naquele jeito de ver as coisas, interesse em rir ou fazer bonecos de vudu juntes. Sempre. Mas agora só semana que vem porque hoje já marquei com o Gustave.

Manifesto, eu inteira ❤️
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Amo! ❤️
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