Gênios e fontes

Viviane Silva

Se um gênio não materialista se materializasse diante de você e oferecesse três desejos, você sabe o que pediria? E se fosse um desejo só? Lembra, é um gênio não materialista, então nem adianta pedir pra ganhar na mega, pra virar herdeiro de parentes distantes, ou um emprego mole que pague bem – isso é pra poucos e está fora da jurisprudência de um gênio. Não vale pedir mais desejos. Esse plano só está disponível em fontes mediante pagamento, mas com tantas crises hídricas e desastres ambientais, não seria conveniente.

Adianto ainda que se você pensou em viagem ou mudança de país, veto. O gênio materialista e a fonte dos desejos não podem interferir no seu karma pessoal, e se você nasceu e vive atualmente no Brasil, talvez exista algo de uma vida passada bem cabeluda que você precise resolver. Então, continuemos. Você tem um desejo a fazer. E aí, vai pedir o quê? 

Se para a psicanálise o desejo é aquilo que se esconde o tempo todo, para o capitalismo o desejo é o sem-fim de opções que tornam a escolha quase impossível. Numa conversa recente, uma amiga me contou que queria reatar um relacionamento que ela mesma havia terminado, e que essa vontade só bateu depois de descobrir que a tal pessoa, encorajada por ela, havia seguido em frente e se enroscado com outra. Tem ou não tem caroço nesse angu?

Aposto que não tem. Aposto que é a psicanálise num rolê capitalista. A oferta cai, a demanda aumenta. Se eu tenho, não preciso querer, e quando perco, volto a querer loucamente. Então, como resolvemos? 

Talvez o desejo fundante da vida de uma criatura seja mesmo aquilo que se oculta, Freud. Mas talvez os nossos quereres, bem menos conceituais mas bastante complexos e um tanto faceiros, demandem um olhar um pouco mais atento. Soma-se  a isso o fato de que realizar um desejo exige uma contrapartida que pode cansar, tão mal acostumados estamos diante de uma existência que não para de oferecer possibilidades leves e rasas, cheias de promessas malucas tão curtas quanto os sonhos bons em que ninguém acredita mais.

Isso significa que tudo está perdido? Não. Já admiti aqui uma dificuldade em identificar desejos, e não vou fingir que a questão se resolveu. Sabemos também que com o tempo vamos aprendendo a diferenciar o que é gostoso do que não é, o que é essencial do que é supérfluo, o que é natural do que é forçado. Tá, mas e hoje, o que temos pra hoje? 

Tenho uma proposta mais prática: fechar os olhos e usar outros sentidos. E isso vale para caminhos profissionais, possíveis relacionamentos ou só pra decidir o que fazer numa sexta à noite mesmo. No fim de uma semana de trabalho, deu vontade de bolinho de chuva e dorama com a mamãe? A caipirinha de caju veio pra celebrar? O perfume que ficou na roupa e que tem nome, nome do meio e sobrenome, deu saudades? Vestiu a camisa e vibrou de verdade com a goleada do time adversário? Então, mon amour, joga a moeda na fonte e fecha com o Gênio.

Foto: @quarent.a – Wishing on stairs

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